Visitada por Mick Jagger e Janis Joplin, aldeia hippie de Arembepe faz 50 anos e mantém viva a filosofia da paz e amo

Visitada por Mick Jagger e Janis Joplin, aldeia hippie de Arembepe faz 50 anos e mantém viva a filosofia da paz e amo

"Eu tenho que comemorar isso: que eu ainda estou vivendo essa filosofia de paz e amor". As palavras são de Maurício, um dos moradores que fazem parte da aldeia hippie de Arembepe, localidade que pertence à cidade de Camaçari, na região metropolitana de Salvador, e que resiste aos tempos modernos, mantendo acesa a chama da paz e amor.

O reduto fica a cerca de 50 quilômetros do Aeroporto Internacional de Salvador, em uma imensa área cercada por dunas e cheia de coqueiros, margeada de um lado pela praia e do outro pelo rio Capivara. Entre os anos 60 e 70, foi frequentada pelos maiores "doidões" que cambaleavam pelo planeta Terra, de Mick Jagger a Janis Joplin, passando por Roman Polanski, Jack Nicholson, Novos Baianos, Gil, Caetano, Rita Lee e outros.

A data exata da fundação da aldeia é um mistério, entretanto, oficialmente, a prefeitura da cidade celebrou os 50 anos do local neste ano. No dia 30 de março, um show foi realizado em Arembepe, com apresentações dos Novos Baianos, Saulo e outros artistas.

As décadas passaram, o milênio virou e a badalação na aldeia terminou, contudo, meio século após os primeiros hippies chegarem ao local, cerca de 30 a 40 pessoas ainda vivem na aldeia, mantendo vivo o espírito de paz, amor, liberdade e harmonia com a natureza.

Em maioria, são artesãos, músicos, escritores e artistas diversos, que têm no local o paraíso que não encontram nos centro das metrópoles.

Um deles é Maurício [por lá, os moradores se conhecem pelo apelido ou primeiro nome. Esqueça sobrenomes], artesão que há 30 anos escolheu a aldeia hippie de Arembepe como lar.

"É só você olhar em volta. O que me faz ficar e amar tanto esse lugar está em volta da gente. A natureza, a paz... Isso é que me faz ficar no lugar há 30 anos", afirma.

Isso não quer dizer que os moradores vivam grudados à aldeia. Pelo contrário, muitos colocam a mochila nas costas e saem Brasil afora, trabalhando para conseguir a próxima refeição ou a carona que vai levá-los à próxima cidade. Mas, no final da jornada, todos voltam para casa.

Por falar em casa, a aldeia possui algumas espalhadas pelo enorme terreno. São espécies de bangalôs, com algumas garrafas de vidro no lugar dos tijolos, enquanto outras são feitas de madeira, barro ou palha. Quem chega no local pode alugar barracas disponíveis em algumas das casas, e quem não tem como pagar em dinheiro, paga em trabalho.

A aldeia já possui água encanada e energia elétrica, entretanto não é todo dia que o abastecimento está regular. Por isso, eletrodomésticos são quase inexistentes, e todo o serviço que precisa ser feito, de construção de casas até a manutenção da rede elétrica, é realizado pelos próprios moradores.

Origem

Não há um consenso de quando o primeiro hippie chegou ou quando a aldeia foi fundada, mas no próprio local há um cartaz descrevendo a provável origem do reduto hippie em Arembepe. O texto foi retirado do livro "naquele Tempo, em Arembepe", de Beto Hoisel.

"Quando e como começou a aldeia hippie, não se sabe. Possivelmente, fins dos anos sessenta algum chincheiro curtidor chegou e resolveu ficar. Fez casinha com palha de coqueiro, e ninguém reclamou. Arrumou - ou tinha - companheira e foi ficando. Encontrou outro maluco fazedor de colares e pulseiras em Itapuã ou no Mercado Modelo, onde vez em quando ia vender seu produto, e espalhou discretamente a descoberta. Foram aparecendo outros e outras, fazendo casinhas e ficando, sem ninguém reclamar. Tudo deserto, ninguém para encher o saco, natureza limpa, a praia, o rio, o pôr-do-sol e o nascer da lua, os coqueiros fornecendo material de construção e coco à vontade a fome a sede. Arembepe logo ali, para um apoio imediato. E principalmente, ninguém. Ninguém para reclamar dos trajes ou da falta deles, ninguém para fiscalizar os comportamentos assumidos. Silêncio e paz. Lugar ideal para o amor, ao som discreto das guitarras, flautas e bongôs. Liberdade. Li-ber-da-de! estava fundado o paraíso".

Mick Jagger

Mick Jagger foi fotografado na aldeia, em 1969 — Foto: Divulgação/Arquivo pessoal

Um dos primeiros registros conhecidos da aldeia foi a visita de Mick Jagger, em 1969. O momento foi imortalizado com uma foto dele, com cerca de 25 anos de idade, tocando bongô, rodeado por crianças, na Casa do Sol Nascente.

"Normalmente, nessa Casa do Sol Nascente, todos eram pessoas ilustres. Tinham cineastas, cantores, médicos", explica Anderson, que nasceu em Arembepe e hoje desempenha o papel de uma espécie de assessor de comunicação da aldeia hippie.

"Essa Casa do Sol Nascente foi escolhida nessa parte mais recuada da aldeia, pelo fato do Rio Capivara ter uma parte mais sinuosa, e aí eles poderiam usar do direito deles de ficar nu, na paz e amor deles, recuado das lavadeiras, que já existam há séculos. Por respeito, eles escolheram a parte mais sinuosa e recuada do rio, para se banhar e fazer as coisas do sexo livre da época", explica Anderson.
Outra celebridade do rock que passou por lá foi a cantora Janis Joplin. Ela esteve em Arembepe em março de 1970, sete meses antes de morrer por overdose de heroína.

Nativos não gostavam

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No início, nativos de Arembepe não gostavam da presença dos hippies — Foto: Gabriel Gonçalves/G1 Bahia

Apesar da aldeia hoje ser parte importante de Arembepe e uma das principais atrações turísticas de Camaçari, os primeiros hippies que chegaram ao local, na década de 60, não encontraram boas vindas calorosas por parte dos nativos da localidade, que era uma vila de pescadores.

"Os hippies já vinham com pouca roupa, ou com roupas que não eram bem confeccionadas, no padrão, então os mais velhos contam que em 1966, 1967, quando os primeiros começaram a aparecer, eles diziam: 'Esconde os meninos, esconde as crianças, que os hippies chegaram'", conta Anderson.

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Rancho Janis Joplin é uma das paradas obrigatórias na aldeia hippie de Arembepe — Foto: Gabriel Gonçalves/G1 Bahia

 

Com a passagem do tempo, Anderson conta que os nativos começaram a perceber que muitos hippies eram médicos, doutores, pessoas graduadas que desistiram da correria das cidades grandes e buscavam levar uma vida mais tranquila.

"Depois de uns 10 anos, começou a haver uma troca: 'Olha, dizem que o hippie é médico, não quer perguntar, Não?'. E a necessidade fez com que os nativos usassem um pouco do privilégio - porque os hippies não eram besta. Os hippies eram doutores, eram pessoas formadas, cineastas, escritores, compositores, americanos, franceses. Então, alguns hippies curavam as crianças", diz.

A partir daí, os nativos de Arembepe e os hippies passaram a ter uma relação mais próxima. "Depois de um tempo, a gente teve a interação com os hippies e a evolução. A gente evoluiu com os hippies. Aí a comunidade começou a abraçar a aldeia, mas no início foi bem difícil", conta Anderson

Paz e amor

Os moradores que vivem na aldeia hippie compartilham uma filosofia que estava em voga nos anos 60, mas que, segundo eles, foi perdida ao longo dos anos: paz, amor, liberdade e harmonia com a natureza.

Um deles é Alceu, que está na aldeia há 35 anos e comanda no local o Rancho Janis Joplin, que é conhecido como o reduto da música no local.

"Eu vivo o movimento hippie, sou da ideologia, vivo há 60 anos. A minha ideologia é a paz, o amor, a liberdade de expressão e que a Terra seja leve", diz.

Fiel aos próprios valores, ele recusa o título de dono da terra onde mora. "Eu sou posseiro, não sou dono de terra. Até porque, quando eu nasci, a terra já existia, quando cheguei aqui, a terra já existia. Como é que eu sou dono disso?", questiona Alceu.

Quando você nasce, já nasce na terra. A terra não tem dono. A terra é mãe. A mãe é esplêndida, é um desabrochar da natureza. Na terra temos tudo: temos alimento, temos nós mesmos, as espécies malignas e benditas. A terra é que é nossa história", afirma.

Cacau é outro morador da aldeia hippie de Arembepe que não troca o local por nenhum outro lugar. Para ele, que nasceu em Itapuã, em Salvador, e é filho de pescador, a calmaria da aldeia não tem preço.

Ele trabalha como salva-vidas na praia de Arembepe e está construindo outra casa no terreno em que vive.

"Essa tranquilidade, que Salvador não tem. Minha rotina na aldeia é acordar 3h da manhã, começar a fazer abdominal, depois amanhece e eu começo a catar pedra, para fazer minha casa", relata.

O artesão Black, que mora há 28 anos na aldeia, já passou por 19 estados brasileiros, mas sempre volta para Arembepe. Segundo ele, a liberdade que ele deseja não seria possível se tivesse que levar uma vida tradicional, nas cidades.

"Eu sempre fui artesão. E artesão qualquer lugar do mundo ele vive. Aonde chegar, ele está vendendo o trabalho dele", explica.
Com o espírito livre, os moradores da aldeia seguem mantendo em prática os valores que os hippies vêm carregando ao longo do tempo. E 50 anos depois, a aldeia de Arembepe segue como uma das últimas comunidades deste tipo no Brasil, abrigando aqueles que não se conformam com a vida tradicional nas cidades e prezam pela liberdade de estar aonde quiserem.

"Você quer ter um pouco de liberdade, viajar, e é uma coisa que um pai de família não consegue. Como é que ele vai viajar, se ele trabalha? A gente trabalha para nós mesmos. Qualquer lugar vive. Se eu cismar de ir pro Amazonas amanhã, eu vou. Pro Rio de janeiro, pro Mato Grosso... É só botar na cabeça que vai; arrumar a mochila e vai", diz Black.

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