Quinta-feira, 28 de Maio 2020
12:00:43pm
Família de idosa que morreu por covid-19 nega que fez velório com caixão aberto

Família de idosa que morreu por covid-19 nega que fez velório com caixão aberto

Além da tristeza pela perda de Nilzete Porfiria dos Santos Souza, 77 anos, vítima de covid-19, os familiares tiveram que lidar com a suspeita de que o corpo dela havia sido velado com o caixão aberto e que, por isso, cinco parentes terminaram sendo contaminados pelo novo vírus na cidade de Cairu, no Baixo Sul baiano.

Em conversa com o CORREIO, um familiar dela, que prefere não ser identificado, confirmou que houve velório, mas nega que a urna funerária tenha sido aberta durante a despedida. Os familiares disseram, ainda, que o serviço médico municipal não mencionou, em nenhum momento, que o caso de Nilzete era suspeito de contaminação pelo coronavírus.

O quadro de sintomas dela começou com uma febre no domingo (3) e, na terça-feira seguinte (5), os filhos decidiram levá-la à unidade básica de saúde em Gamboa, uma das localidades do município, vizinha a Morro de São Paulo. Lá, ela foi atendida por uma médica de plantão, que percebeu que Nilzete estava com um ruído no pulmão e que poderia ser início de pneumonia.

Um medicamento foi receitado, ela teve alta e a família foi orientada a levá-la de volta à unidade na semana seguinte. Só que até a quinta-feira (7) a idosa não apresentava melhora e, por bem, retornaram antes para atendimento com a mesma médica, que detectou pressão alta, açúcar baixo e saturação desregulada. “Ela em nenhum momento disse que era coronavírus”, acrescenta.

Neste mesmo dia, Nilzete foi regulada para a Santa Casa de Misericórdia, no município de Valença, mas teve insuficiência respiratória, não resistiu e foi a óbito por volta das 18h. No hospital, uma amostra de sangue foi colhida para checar se a causa da morte foi por coronavírus, mas a família diz não ter sido comunicada sobre isso. “Não tinham falado que tiraram sangue para fazer o teste”, lembra o parente.

Velório

Foi através de uma nota emitida pela Prefeitura de Cairu, também no dia 7 de maio, que a família soube que ela tinha morrido com suspeita de covid-19. “Eles emitiram uma nota, não falaram com a gente da família antes”, conta. Liberado por volta das 19h, o corpo de Nilzete foi levado para ser enterrado em Gamboa. No entanto, como era noite, o corpo foi arrumado em casa por uma funcionária de uma funerária, com a ajuda de uma neta da idosa.

“Ela congregava em uma Igreja Batista, mas inclusive a gente optou por não levar o caixão para a igreja para que não tivesse aglomeração. Quando o caixão chegou, entrou na casa somente a funcionária e uma neta, que estavam usando avental, luvas e máscaras”, recorda.

Depois que o caixão foi fechado e lacrado, as filhas da idosa entraram e fecharam a porta da casa, num ato mais íntimo para dar o último adeus. Alguns vizinhos e outros parentes, não se sabe quantos, entraram em seguida, mas a urna funerária não foi aberta, reforça o familiar. “O caixão tinha uma parte de vidro, então quem a viu, viu pelo vidro”, explica. Ela foi sepultada na manhã do dia seguinte. O resultado com o diagnóstico positivo da covid-19 só saiu na segunda-feira (11).

Prefeitura suspeitou que caixão foi aberto

Segundo a Secretaria de Saúde do município, quando o corpo da idosa deixou o hospital de Valença, foram dadas orientações para que o caixão não fosse aberto durante o funeral, mas houve uma suspeita de violação desta regra e a prefeitura local decidiu testar 12 pessoas que participaram do velório e cinco tiveram diagnóstico positivo para a doença. Destas, cinco deram positivo.

No entanto, a família acredita que a contaminação pode ter acontecido antes mesmo do velório, já que a idosa recebeu suporte de filhos, netos e genros quando apresentava os sintomas.

“As pessoas que saíram dizendo isso são irresponsáveis porque não faz nem sentido. Dizem que a família foi contaminada no velório, mas como que iam ter um resultado positivo assim de imediato se até os sintomas da doença levam até 14 dias para se manifestar?”, retruca. “Nós estamos muito inconformados, uma dor que não a gente não consegue suportar e ainda tem que lidar com coisas que são ditas na internet”, desabafa.

Depois da confirmação de morte pela nova doença, ainda correu no WhatsApp da cidade uma história de que quando os participantes do velório foram chamados para fazer o teste, os familiares tentaram atacar os profissionais de saúde com paus e pedras. “Foram tantos áudios, quase tudo falso e ainda tem gente que tem coragem de nos enviar. O sentimento de tristeza se mistura com o de raiva, são coisas que a gente não queria estar sentindo”, conclui.

Preconceito

A cidade de Cairu tem pouco mais de 18 mil habitantes e muitas pessoas reconhecem umas às outras. As informações sobre o caso correram rápido e agora a família relata estar sofrendo preconceito. Muitos evitam mesmo os que testaram negativo.

Conforme o boletim epidemiológico da cidade desta quinta-feira (14), Cairu tem atualmente 10 casos da doença, um óbito e 14 suspeitas. Todas as pessoas testadas como positivo tiveram contato próximo à Nilzete. A prefeitura ressaltou, em nota, que não é possível confirmar se as pessoas foram infectadas durante o velório, nem como se deu a contaminação das mesmas.

Para tentar controlar a disseminação do vírus, a prefeitura criou o canal Zap Covid Cairu. Através do whatsapp, a população pode entrar em contato com profissionais de saúde e tirar dúvidas sobre a doença. O serviço funciona das 8h e 17h, de segunda à sexta-feira, para oferecer esclarecimentos através de mensagens.

Por que não pode abrir o caixão?
A infectologista Melissa Falcão explicou ao CORREIO que é arriscado deixar vítimas fatais da covid-19 com caixão aberto porque, mesmo após o óbito, o paciente infectado ainda pode transmitir o vírus para pessoas que entrem em contato com o cadáver.

“O corpo ainda pode armazenar o vírus depois do óbito e transmitir a doença para outras pessoas através da secreção. Os familiares não devem entrar em contato com o corpo mesmo após a morte do paciente”, afirmou.

Por se tratar de uma doença nova, a medicina ainda não sabe precisar por quanto tempo após a morte a vítima da covid-19 carrega o vírus ou pode infectar quem entre em contato. O Ministério da Saúde determina que os caixões devem ser lacrados e que os velórios de pessoas mortas pelo vírus devem ter no máximo 10 pessoas para evitar os riscos de aglomerações e novas contaminações.

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