Oeste baiano é palco de disputas, trabalho análogo à escravidão e grilagem de terra

Oeste baiano é palco de disputas, trabalho análogo à escravidão e grilagem de terra

Em carta aberta ao governo do estado, 56 associações de geraizeiros - descendentes de indígenas e quilombolas que moram no Cerrado - da cidade de Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia, pedem socorro às autoridades baianas pelo desmatamento de terra na região. Elas solicitam a revogação da autorização dada à empresa Agronegócio Condomínio Cachoeira do Estrondo, conhecida como Fazenda Estrondo, em 22 de maio de 2019, que legaliza o desmatamento no local.

Segundo o documento, a Fazenda Estrondo nunca conseguiu demonstrar a regularidade fundiária de sua posse e está, ilegalmente, na Reserva Legal dos territórios tradicionais dos geraizeiros, que vivem de forma sustentável do Cerrado. O próprio Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu, novamente, em junho de 2021, após vários recursos, que os geraizeiros são os donos daquela terra. Porém, a Estrondo segue na área com seguranças armados, que já balearam três pessoas da comunidade.

A carta ainda aponta que a empresa pretende desmatar mais de 24 mil hectares de terra, área maior que a cidade do Recife, capital de Pernambuco. Pelas imagens obtidas da Plataforma MapBiomas, 3 mil hectares já foram desmatados, até o dia 17 de agosto de 2021. A Fazenda Estrondo é tida como um dos maiores casos de grilagem verde do Brasil, segundo o Livro Branco da Grilagem de Terras do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 1999, com 444.306 hectares registrados. A ocupação das terras data do final do governo militar, em 1982.

As associações exigem que o Inema revogue as Autorizações de Supressão de Vegetação (ASV) dada à empresa e que o Instutito realize, com urgência, uma visita in loco, para registrar e averiguar a denúncia, assim como notificar a empresa do desmatamento iniciado. A carta foi enviada à Secretaria do Meio Ambiente (Sema), ao Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) e à Coordenadora Executiva da Coordenação de Desenvolvimento Agrário da Bahia, que regula a questão fundiária no estado, no dia 1 de setembro, mas, até hoje, não teve resposta.

Sem apoio
O presidente da Associação Comunitária da Comunidade Geraizeira de Cachoeira, morador Jossone Leite, que é vizinho da Fazenda Estrondo, diz que desde 1994 que o grupo se estabelece de forma ativa na região. “Eles começaram, desde então, a desmatar e foram avançando cada vez mais. Já não tem mais Cerrado. A gente já fez contato com o Inema, cobramos não sei quantas vezes, mas disseram que está tudo legal. E a gente fica aqui sem receber apoio”, narra Leite.

De acordo com o morador, o conflito entre eles está mais calmo. Porém, ele espera ter a terra de volta, direito reconhecido pelo STJ. “O Cerrado é tudo para a gente, representa nossa vida, a gente depende dele para sobreviver. Se acabar com ele, a gente não tem fonte de renda”, esclarece Leite. As famílias que moram ali vivem de subsistência e vendem o excedente, como frutas e criação de gado.

Quase 2 mil campos de futebol desmatados por mês
Informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que quase 103 milhões de hectares do Cerrado foram desmatados, no Brasil, até 2020. Na Bahia, foram mais de 6 milhões de hectares. Ou seja, o desmatamento no território baiano corresponde a 5,8% do desflorestamento nacional. Ainda não há dados sobre o desmatamento em 2021.

No caso de Formosa do Rio Preto, são 33 mil hectares desmatados, entre maio de 2019, quando a Fazenda Estrondo recebe a ASV do Inema, e dezembro de 2020. Isso dá uma média de 1.941 campos de futebol desmatados por mês. Os números são do sistema de Dados utilizados no programa de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter) do Inpe. Segundo o instituto, a região vem sendo monitorada desde 2018.

Perda da biodiversidade
Considerado a savana brasileira, o Cerrado é o bioma mais biodiverso do planeta, de acordo com o presidente e fundador da Organização sem Fins Lucrativos (ONG) Save Cerrado, Paulo Bellonia. A ONG atua na recuperação e preservação de áreas críticas desse ecossistema. O pesquisador e ativista diz que, a cada 40 segundos, o equivalente a um campo de futebol foi desmatado no Cerrado, no Brasil, em 2020. Isso o torna o bioma o mais desmatado do país, proporcionalmente.

“É considerado um hotspot mundial, que são áreas com alta concentração de biodiversidade e ameaçadas de extinção. Para se ter uma ideia do tamanho da ameaça, somente 2,3% da área do planeta é considerada hotspot, e essas áreas detém 60% da biodiversidade terrestre. São diversos conteúdos demonstrando, internacionalmente, a preocupação e atenção com o Cerrado no Brasil”, afirma Bellonia.

O biólogo Domingos Cardoso, doutor em botânica e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que esteve na Fazenda Estrondo, em 2009, demonstra-se inconformado com a situação. “Além da diversidade de plantas, pudemos coletar espécies novas, que nunca tinham sido coletadas. Infelizmente, o nível de destruição do Cerrado na Bahia chegou a números alarmantes. Se eu voltasse hoje, não veria a mesma exuberância”, conta.

O pesquisador ressalta que a importância do Cerrado vai além da fauna e flora. “As pessoas não têm consciência, pensam que, por ser vegetação baixa e não serem árvores grandes, já está destruído. Mas o Cerrado tem valores imensos, é um grande reservatório, de onde sai um monte de nascente, que irriga bacias. É muito mais frágil e perigoso para a sustentabilidade, ainda mais nesse contexto de crise hídrica”, esclarece. Segundo ele, a Amazônia tem 11.903 espécies de plantas com flores. Já o cerrado, que tem área bem menor, tem 12.025.

Multa e trabalho análogo à escravidão
Uma das 14 empresas donas da Fazenda Estrondo, a Companhia Melhoramentos do Oeste da Bahia (CMOB), já foi inclusive multada no valor de mais de R$ 25 milhões pelo Inema por desmatamento ilegal, em 2014. O documento indica que a empresa desmatou, a corte raso, mais de 25 mil hectares de vegetação nativa do Cerrado, fora de reserva legal, sem autorização do órgão ambiental competente.

Outra polêmica envolvendo a Fazenda foi, em 2005, quando uma operação do Ministério Público do Trabalho (MPT) resgatou 91 trabalhadores em condições análogas à escravidão em duas fazendas da Estrondo, a Indiana e a Austrália. Na primeira, 52 pessoas colhiam algodão em condições precárias. Na segunda, 39 funcionários recebiam R$ 60 por mês na produção de soja.

Além das 14 empresas, existem 41 arrendatários da Estrondo, segundo o site da cooperativa. Dentre eles, investidores até do Japão. A produção da fazenda é dividida em nove sedes, fabricantes de milho, soja e algodão.

O que dizem os órgãos oficiais
A Secretaria do Meio Ambiente da Bahia (Sema) informou que a responsabilidade de responder às perguntas do CORREIO é do Inema. O Inema teve mais de 30 dias para responder, mas não se posicionou, assim como a prefeitura de Formosa do Rio Preto.

A Procuradoria Geral do Estado (PGE) disse nunca ter concedido direito à terra a empresas e tampouco ajudou-as a conseguirem as ASVs, porque não tem competência para tal. A PGE acrescentou ainda que moveu uma ação discriminatória para que a área ocupada pela Estrondo se constitua como “terras devolutas estaduais”.

O órgão ainda reiterou que “respeita a decisão judicial que reconheceu a posse das comunidades geraizeiras e, juntamente com os Ministérios Públicos Estadual e Federal, está trabalhando para uma solução consensual do conflito existente entre as comunidades geraizeiras e o Condomínio Estrondo, com a manutenção das comunidades em suas posses tradicionais”, conclui.

O STJ disse que o processo ainda não transitou em julgado e que o agravo de instrumento, requerido por duas empresas da Estrondo, a Colina Paulista e a Delfin Rio S/A Crédito Imobiliário, está com recurso pendente de julgamento.

“Encontra-se concluso ao relator, ainda sem data prevista de julgamento”, declarou o órgão, pela assessoria de imprensa. Sobre as perguntas, o tribunal respondeu que “o Judiciário age conforme provocado. Não cabe à assessoria de imprensa do STJ analisar cenários e confrontá-los com decisões que tenham sido proferidas pelo Tribunal”, acrescenta.

As partes
O advogado Maurício Correia, coordenador executivo da Associação dos Advogados de Trabalhadores Rurais (AATR) alega que o caso é típico de grilagem verde. “A empresa usurpa domínios alheios para fingir a regularidade ambiental de determinado imóvel”, assegura. Na carta aberta, as associações pontuam que as decisões judiciais que reconhecem a posse das comunidades da área da ASV foram ignoradas.

Advogado da empresa Delfin, umas das donas da Fazenda Estrondo, Bruno Bittar acredita que haja uma ganância dos povos tradicionais para adquirirem a posse das terras. “Em certos momentos, eles alegam ser povos tradicionais, mas, quando o Ministério Público foi dar o direito às terras, eles queriam as escrituras individuais. Tanto é que, no início, eram 11 famílias e, hoje, são 150. Eles estão vendo oportunidade e colocando a empresa, que tem a escritura há mais de 40 anos, como vilã”, defende Bittar.

Informações ainda apontam que o Inema teria notificado a Delfin a prestar esclarecimentos, mas o endereço para a entrega de correspondência é do Rio de Janeiro e as notificação não são entregues.

Em nota, a Delfin Rio S/A disse que possui licença legal emitida pelo Inema desde 2015, "tendo inclusive, recebido parecer favorável do Ministério Público da Bahia quanto à legalidade da emissão da licença pelo órgão ambiental, em 2018, quando houve questionamentos semelhantes por parte de terceiros", informa. Segundo a empresa, a ligação dos vales do Rio Preto e Rio Riachão continua mantida, e a supressão ocorrerá apenas em uma parte da área da Chapada, "com a preservação da vegetação integral dos vales".

A Delfin ainda comunicou que, apesar de, por lei, poder suprimir até 80% da área em questão, planeja desmatar 34,2%. "O que aparece nas imagens são aberturas dos corredores para afugentamento da fauna, que estão sendo acompanhadas por uma equipe multidisciplinar obedecendo as condições da licença ambiental", adiciona. A empresa argumentou que tem amparo legal desde 1981, com registros no Cartório de Registro de Imóveis, Receita Federal, Incra e em cadastros ambientais.

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  • Surto de covid-19 em Hospital de Itabuna infecta 17 pacientes

    Um surto de covid-19 foi identificado na Enfermaria B do Hospital de Base Luís Eduardo Magalhães (Hblem), na cidade de Itabuna, no sul da Bahia. Na última segunda-feira (22), 38 testes de antígenos e RT-PCR foram realizados e 17 tiveram resultado positivo para a doença. A prefeitura do município afirma que o surto foi contido e isolado, a partir de um plano de contingência.

    Desde a confirmação dos casos, a direção da Fundação de Atenção à Saúde de Itabuna (Fasi), mantenedora do hospital, isolou os pacientes positivos dos demais, intensificou as medidas protetivas e diminuiu o fluxo de acompanhantes e estudantes. Segundo a Fasi, todos os pacientes são testados antes do internamento e realização de cirurgias.

    Ainda não se sabe o que teria dado início a transmissão do vírus, se a doença foi disseminada por um acompanhante ou por um profissional. Não há informação precisa de quando os testes foram realizados, mas uma investigação foi iniciada para tentar elucidar o ocorrido.

    O caso em Itabuna é mais um que surge no momento em que o estado apresenta surtos de covid-19, que não vinham sendo registrados recentemente. Na quarta-feira da semana passada (17), o Hospital Geral Roberto Santos, em Salvador, registrou, pelo menos, 18 casos de infecção por covid-19. Devido às contaminações, que foram identificadas na emergência da unidade, pacientes tiveram que ser transferidos e a visitação foi suspensa.

    Nesta quinta-feira (25), o CORREIO publicou uma denúncia de uma moradora de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, sobre um suposto surto de coronavírus que estaria ocorrendo entre funcionários de quatro instituições de ensino municipal da cidade. Segundo ela, a gestão municipal estaria tentando abafar os registros positivos. Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Camaçari confirmou casos da doença em duas instituições.

  • Eleita nesta quarta, Daniela Borges será a primeira mulher a presidir a OAB-BA

    A advogada Daniela Borges, da chapa União pela Advocacia, será a primeira mulher a presidir a Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Bahia (OAB-BA). A eleição aconteceu nesta quarta-feira, 24, das 9h às 17h, em 104 seções eleitorais, 50 em Salvador e 54 no interior. Foi a primeira vez na história que a eleição para a diretoria da entidade contou com candidatas à presidência.

    Até o fechamento desta edição, 95 das 104 seções tinham sido apuradas , restando ainda 9 no interior. Os dados parciais, até às 22h desta quarta, mostram que a chapa vencedora obteve 4.827 votos (46.38%). Em segundo, ficou a chapa OAB de Coração, com 3.933 votos (37.79%), seguida de OAB para Valer, com 514 votos (4.94%) e Liberta OAB, com 357 votos (3.43%). Os votos nulos somaram 465 (4.47%).

    A chapa vencedora, União pela Advocacia, tinha Daniela como candidata à presidência e, para vice, Christianne Gurgel. Daniela é mestra em Direito Tributário, professora da Universidade Federal da Bahia e da Faculdade Bahiana de Direito, Conselheira Federal e presidente da Comissão Nacional da Mulher Advogada. Suas principais propostas são garantir uma melhor remuneração para os advogados e melhorias do judiciário.

    A nova diretoria tomará posse em janeiro de 2022 para liderar a OAB-BA pelos próximos três anos. Ontem, também foram eleitos os membros do Conselho Seccional e de sua Diretoria, dos Conselheiros Federais, da Diretoria da Caixa de Assistência dos Advogados e das Diretorias das Subseções (veja os nomes dos eleitos no final da reportagem).

    Outras candidaturas

    A eleição contou com quatro chapas, sendo duas delas encabeçadas por mulheres. Na OAB de Coração, a candidata à presidência foi Ana Patrícia Dantas Leão e à vice-presidência, Carlos Tourinho. Ana Patrícia é especialista em Direito Processual Civil e já foi duas vezes vice-presidente da OAB-Bahia. A principal proposta era a reestruturação do poder judiciário desoneração fiscal do TJ, extinção das varas de substituição, reativação das comarcas, valorização de honorários profissionais e isenção da anuidade para jovens advogados.

    O candidato à presidência pela chapa Liberta OAB, Ricardo Nogueira, tinha como candidata à vice Tatiana Fernandes Chaves. Ricardo é pós-graduado em Direito Público, foi membro da Associação Comercial da Bahia (ACB) e, hoje, integra a diretoria do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHBa). A principal proposta era reduzir a anuidade da OAB-BA de R$ 850 para R$ 500, juntamente com a reabertura dos fóruns e a reformulação das comissões do órgão.

    A quarta chapa era a OAB Para Valer, com o candidato à presidência Dinailton Oliveira e como candidata à vice D’jane Santos Silva. Dinailton é doutorando em Direito Público e já foi presidente da OAB-Bahia entre 2004 e 2006. A principal proposta da chapa era abrir a OAB para todos os advogados e para a sociedade, além da reestruturação do poder judiciário.

    Dia de votação

    A estimativa era de que mais de 27 mil advogados comparecessem às urnas. A votação aconteceu no novo Centro de Convenções, em Salvador, e em mais 42 endereços distribuídos nas 36 Subseções do interior do estado.

    Na entrada do Centro de Convenções havia música e uma grande concentração de pessoas. Tinha gente com camisa personalizada, adesivos, bandeiras e balões em apoio às candidatas Ana Patrícia Leão e Daniela Borges. Era praticamente impossível chegar até a seção de votação sem um adesivo colado no corpo e até o homem-aranha marcou presença. Uma pessoa fantasiada dançava e animava advogados que chegavam para votar.

    Advogada há 10 anos, Camila Dantas, 33, diz que ficou surpresa com a proporção que a eleição de 2021 tomou. “Mas eu não acho que isso seja ruim, só espero que, além do quantitativo, seja grande também em qualidade porque o que tanto motiva esses candidatos a buscarem o cargo de presidência é a pergunta de um milhão de reais; eu acredito que alguns têm um projeto pessoal de poder e dominação e outros buscam a mudança e melhoria”, diz.

    Também advogado há 10 anos, Fábio Soares, 46, ressaltou a importância de ir votar com consciência. “A eleição serve para direcionar o nosso futuro com relação à advocacia. Então é importante que as pessoas se engajem para que a gente possa eleger o melhor representante possível. Algumas pessoas querem chegar ao cargo para ‘aparecer’ e outras realmente estão querendo melhorar o cenário que temos, então é preciso saber identificar quem é quem e fazer a escolha certa”, opinou.

    Eleição teve confusão desde as pré-candidaturas

    Toda a eleição da OAB-Bahia de 2021 foi marcada por acusações e polêmicas entre os postulantes desde a pré-candidatura. A atual vice-presidente e candidata a presidente Ana Patrícia Leão foi acusada de trair o grupo ao qual pertencia quando decidiu lançar sua pré-candidatura. A chapa também teve o comitê principal da campanha vandalizado na madrugada de 1º de novembro, no Rio Vermelho, em Salvador.

    Sobre os ataques, Ana Patrícia comentou: “Eu nunca aceitei ser um símbolo ou uma fotografia, sempre quis que a mulher tivesse um espaço de poder real e por isso eu fui contra àqueles que têm um discurso de valorização da mulher, mas, na verdade, querem elas sentadas e aguardando o convite da vez delas. Quiseram taxar isso como traição, tratar de forma raivosa o que é independência e liberdade”, disse.

    Outra acusação foi a de que a campanha de Ana Patrícia teria recebido investimentos do grupo do ex-presidente da OAB Nacional, Marcus Vinicius Furtado Côelho e permitido uma interferência indevida do âmbito do Judiciário, com pedidos de juízes e desembargadores a advogados para votarem em Ana Patrícia.

    “Essas acusações são machistas. Dizem que a minha campanha teve financiamento de homens, não aceitam que uma mulher tenha condições de ter um grupo, de criar uma oposição competitiva e responsável. Eu desafio que deem o nome de um político ou um juiz que me apoie financeiramente; não é quem está nas minhas fotos; isso é uma covardia tentar destruir a minha imagem e história com fake news”, se defendeu.

    A Chapa OAB de Coração, liderada por Ana Patrícia e pelo advogado Carlos Tourinho, pediu a cassação do registro do grupo da situação, representado por Daniela Borges. De acordo com a acusação, a chapa de Daniela teria cometido fraude eleitoral no momento em que admitiu a inscrição da advogada Dandara Amazzi Lucas Pinho na chapa. Dandara seria servidora comissionada da Câmara Municipal de Salvador e não estaria exonerada no momento que foi inserida na disputa. Também foi registrada, por esse motivo, impugnação da chapa de Daniela.

    Daniela Borges comentou o caso. “Eu acho lamentável que a gente tenha visto nessa eleição tantos episódios de ataques, tantas fake news. Foram trazidas para as eleições institucionais práticas da mais rasteira política eleitoral, inclusive com ataques pessoais a candidatos e apoiadores da nossa chapa. Chego até aqui com a certeza de que fizemos uma campanha ética e propositiva, que é o que a advocacia baiana merece”, colocou.

    No dia 7 de novembro, um conteúdo de campanha eleitoral foi publicado na conta da OAB Bahia no Instagram. O card citava supostas propostas da chapa da candidata Daniela Borges e ficou no ar por cerca de meia hora. Além disso, a chapa de Daniela encaminhou propaganda para advogados inscritos na OAB. O ato foi apontado como irregular já que é proibida a utilização de banco de dados da instituição.

    “Sobre a postagem no Instagram, a nossa chapa não tinha nenhum interesse nessa publicação, pelo contrário, nossa imagem foi prejudicada e isso já está sendo apurado pela Polícia Federal; somos os maiores interessados de que o responsável seja identificado. Com relação aos e-mails, a norma autoriza esse envio e nós não obtivemos os e-mails da OAB porque uma boa parte nem recebeu, nós construímos um mailing por nossa conta e isso é permitido”, rebateu Daniela.

    As polêmicas não param por aí. De acordo com o site Juri News, a OAB Nacional pagou mais de R$ 220 mil em aluguel para o até então vice-presidente da OAB Bahia, Luiz Viana Queiroz, em Brasília, que era candidato a conselheiro federal na chapa União pela Advocacia, de Daniela Borges.

    Em sua defesa, Queiroz disse que, quando eleito para a diretoria do Conselho Federal, foi o único dos diretores que se disponibilizou a residir em Brasília e, por isso, o órgão arcou com suas despesas de residência na capital federal. Ele ainda acrescentou que não está lotado no gabinete da representação do governador da Bahia na capital federal. Ele continua lotado na procuradoria judicial do Estado, estando em exercício cumulativo em Brasília.

    O candidato Dinailton Oliveira afirmou que registrou impugnação das chapas de Ana Patrícia e de Daniela Borges por abuso de poder econômico. Ele contesta os valores gastos com as campanhas. “Essa está parecendo uma eleição de governador e presidente da república, com carro de som, bandeirola, balão, flores. Eu confesso que nunca vi uma eleição como essa e já registramos impugnação das duas chapas”, afirmou.

    Segundo o presidente da Comissão Eleitoral, Ademir Ismerim, os registros de impugnação serão julgados. “A comissão vai intimar as chapas para que elas possam se defender. A partir daí, a comissão vai tomar uma decisão”, afirmou.

    Confira os nomes de todos os eleitos:

    Diretoria
    Presidente: Daniela Borges
    Vice-presidente: Christianne Gurgel
    Secretária-geral: Esmeralda Oliveira
    Secretário-geral adjunto: Ubirajara Ávila
    Tesoureiro: Hermes Hilarião

    Conselho Federal
    Fabrício Castro
    Luiz Coutinho
    Luiz Viana
    Mariana Oliveira
    Marilda Miranda
    Silvia Cerqueira

    CAAB - Caixa de Assistência dos Advogados da Bahia
    Maurício Leahy
    Cleia Costa dos Santos
    Ilana Campos
    René Viana
    Filipe Reis
    Juliana Camões
    Vanessa Lopes
    Marcos Bonfim

     

  • Visitas são suspensas após surto de covid na emergência do Hospital Roberto Santos

    Um dia depois de se tornar público o surto de covid-19 no Hospital Roberto Santos, no Cabula, o movimento na frente do local estava menor do que antes. A reportagem esteve na unidade ontem e anteontem e pôde perceber a queda na circulação de pessoas. As visitas estão suspensas, de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). “Eles não estão deixando mais todo mundo entrar. Meu pai levou uma facada e a gente tem que ficar aqui do lado de fora”, disse uma jovem, que não quis ser identificada.

    Ela era uma das poucas pessoas que estavam na frente da emergência. “Acho que meu pai deu sorte, pois o caso dele era muito sério. Se não fosse, talvez ele nem seria recebido aqui. Eu cheguei a ver pessoas buscando atendimento e sendo orientadas a procurar outro lugar”, revela. A suspensão das visitas no local é uma das medidas adotas pela Sesab como “reforço de condutas na assistência ao paciente”.

    O Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde está acompanhando o caso e, em conjunto com outros setores do hospital, está identificando, rastreando as equipes e monitorando os casos negativos que permanecem internados na Emergência para avaliar possíveis sinais e sintomas sugestivos de síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave. No entanto, a pasta não confirmou se essas ações estão sendo feitas também em outras unidades do hospital.

    A esposa de Zenildo de Jesus Santos é uma das internadas na emergência. Ela chegou a ser testada três vezes e todos os resultados foram negativos. “Graças a Deus, a parte onde aconteceu o surto foi do outro lado da emergência. Mas a gente ficou com muito medo, pois ela faz diálise e está no grupo de risco”, diz o rapaz, que revela estar no hospital desde o dia 26 de outubro aguardando a marcação de uma cirurgia da esposa.

    “Quando aconteceu o surto, eu pressionei para que a cirurgia fosse logo marcada, pois seria inadmissível a gente passar quase um mês aqui dentro para ela sair com covid. Aí eles marcaram para essa quarta, às 19h”, afirma.

    Zenildo e a esposa são de Valença e foram transferidos para o Roberto Santos após um problema de saúde da sua esposa. “Desde então, tenho que ficar aqui no hospital, correndo o risco de pegar covid”, reclama. Apesar da proibição das visitas, ele não foi orientado a deixar a emergência. Ele argumenta que isso aconteceu por ele já estar no local quando o surto aconteceu e por causa da dependência da esposa dos seus cuidados. “Sou eu que a levo no banheiro, faço tudo, pois ela não consegue ir sozinha”, afirma.

    Funcionários da emergência evitam falar sobre o assunto
    Enquanto esteve na frente da unidade, nesta terça-feira (23), ou seja, um dia após o surto de covid ter se tornado público, a reportagem teve dificuldade em conversar com funcionários da emergência. Alguns não queriam falar sobre o assunto, nem mesmo sob a condição de anonimato. Outros disseram que não tinham muita informação sobre o caso, mas afirmaram que as medidas estão mais rigorosas, inclusive com a substituição das máscaras descartáveis pela PFF2, considerada mais segura.

    “Eu até prefiro a antiga, pois essa me dá a sensação de que estou levando o vírus para casa, pois não posso descartar. Mas se dizem que é a mais adequada, eu confiro”, revelou uma funcionária da parte administrativa da emergência. “Antes a gente podia circular normalmente em toda unidade. Agora, eu fico apenas exercendo o trabalho na minha parte, para evitar contatos”, afirma.

    Outra trabalhadora, que também não se identificou, disse que a sensação é de melhora na situação de surto. “Eu soube que todos os pacientes que tinham covid já foram transferidos. Isso já dá um alívio. Acho que a tendência agora é melhorar”, aponta.

    Ivanilda Souza Brito, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Estado da Bahia (SindSaúdeBahia), disse que notificou a Sesab a prestar mais informações sobre o surto, mas até agora não obteve nenhuma reposta. “Nesse momento tão delicado, onde as pessoas estão brigando por causa de carnaval, é preciso a gente se apropriar desse assunto o mais urgente possível e evitar que o pior aconteça”, pede. O Ministério Público da Bahia também vai acompanhar a situação.

    “O Centro de Apoio Operacional de Defesa da Saúde (Cesau) tomou conhecimento do fato hoje, dia 23, por meio de matéria veiculada pela imprensa e encaminhou o caso para atuação das Promotorias de Justiça com atribuição na área. O procedimento está sob a competência do promotor de Justiça Rogério Queiroz, que já enviou ofício à Diretoria do Hospital Roberto Santos, solicitando que informe, no prazo de 72 horas, o número de pessoas infectadas e as providências adotadas para mitigação dos efeitos e controle do surto. Além disso, ofício foi encaminhado à Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde (Suvisa/Sesab) para que informe quais medidas foram recomendadas para a mitigação e controle do surto no hospital”, disse o MP, em nota.

    Relembre
    De acordo com a Sesab, houve registro de um surto de Covid-19 na última quinta-feira (18) na emergência do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS). “Todas as medidas de contenção foram feitas para que não houvesse espalhamento do vírus nos demais setores do hospital”, disse a pasta, em nota. Ao todo, nove pacientes testaram positivo para a doença. Eles foram transferidos para unidades de referência para a Covid-19.

    À reportagem, a Sesab chegou a confirmar que outros nove funcionários também tinham testado positivo para covid. Porém, nesta terça-feira, a pasta explicou que houve um equívoco em uma de suas respostas e que não há confirmação de casos em profissionais. De qualquer modo, a Sesab explicou que, quando um trabalhador da saúde é contaminado, seja no Roberto Santos ou em qualquer outra unidade estadual, ele é afastado de suas atividades para que possa se recuperar e também para que não haja espalhamento do vírus.

    Os nomes, idades e estados de saúde dos pacientes que pegaram covid não foram divulgados, nem mesmo o nome do hospítal para onde eles foram transferidos. Na tarde da segunda, uma trabalhadora da emergência, sob a condição de anonimato, chegou a afirmar que ainda haviam seis pacientes contaminados com a covid aguardando a transferência.

    “Tem cinco pacientes com covid. Na verdade, são seis, pois acabou de sair um resultado positivo. O local onde eles estão é vazio, mas a gente tem que entrar para fazer os procedimentos”, disse a moça, que aproveitou para reclamar da sobrecarga de trabalho. “Normalmente, umas 25 pessoas estariam trabalhando aqui e só tem oito. Muita gente está afastada. E isso é ruim, pois o pessoal fica sobrecarregado”, revela.

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