Municípios baianos com maiores gastos nas festas juninas serão alvos de fiscalização

Municípios baianos com maiores gastos nas festas juninas serão alvos de fiscalização

Ações conjuntas de fiscalização e de orientação dos gestores públicos sobre gastos realizados com os festejos juninos foram debatidas pelo Ministério Público estadual e Tribunais de Contas do Estado (TCE) e dos Municípios na última segunda-feira (13). Durante a reunião, o coordenador do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Proteção à Moralidade Administrativa (Caopam), promotor de Justiça Frank Ferrari, e os presidentes do TCE e TCM, respectivamente, Marcus Presidio e Plínio Carneiro, definiram que as atividades de fiscalização terão o propósito de assegurar a melhor preservação dos recursos públicos e o cumprimento das normas orçamentárias e de responsabilidade fiscal.

A decisão é que a fiscalização deve ser feita sem perder de vista que a preservação do interesse público inclui a priorização de medidas que privilegiem a manutenção dos festejos e de seus benefícios para a economia e o lazer, assim como atenda a legítima expectativa da comunidade na preservação de sua cultura e tradição, frisam eles.

Os órgãos também decidiram que, para melhor eficiência do trabalho de fiscalização, as ações serão concentradas nos municípios que empreguem maior volume de seus recursos na realização das festividades, e, mais especialmente, naqueles que tiveram emergência/calamidade decretada e foram beneficiários de aportes de recursos federais e/ou estaduais de transferências decorrentes dessas situações.

Além disso, serão foco da fiscalização os municípios que não aplicaram recursos vinculados previstos, especialmente na área da saúde, e detenham elevadas dívidas previdenciárias, entre outras. Essa fiscalização, explica o promotor de Justiça Frank Ferrari, deve ser realizada com a devida cautela, pautada pela análise de custos e benefícios com vistas à mais efetiva proteção do interesse público.

Para ele, dentre as várias formas de abordar e tratar os problemas relacionados à defesa do patrimônio público, “não há dúvidas de que a atuação preventiva de danos ao erário e de outros ilícitos é a abordagem mais econômica, possuindo menores custos sistêmicos com potencial de produção de maiores e melhores benefícios, de modo que deve ser preferida às intervenções reativas, sobretudo aquelas de natureza repressiva e sancionatória, muito mais caras para todos e em todos os sentidos possíveis”.

O promotor de Justiça alerta, entretanto, que a prevenção será priorizada sem prejuízo da eventual adoção de medidas mais duras em face de casos mais graves, “o que esperamos seja desnecessário”. Já o presidente do TCE, Marcus Presídio, ressaltou que as instituições estão buscando “a melhor forma de preservar o interesse público, de forma a preservar os recursos financeiros sem perder de vista os interesses econômicos e culturais legítimos da população.

"Buscaremos, sobretudo, orientar os gestores para prevenir novas ocorrências de irregularidades no futuro, aproveitando para preparar o controle externo para nos apoiar na prevenção das situações indesejadas”, disse Presídio. Ainda segundo o MP e os Tribunais de Contas, será promovida a verificação do conteúdo das decisões que fundamentaram a realização dos eventos e os valores despendidos, com a exposição clara e detalhada dos motivos, bem como as justificativas para os dispêndios com a contratação de artistas, estruturas e outros gastos relacionados.

O promotor de Justiça e os presidentes dos Tribunais destacam que os esforços buscarão soluções que previnam que o problema volte a ocorrer futuramente, com o estabelecimento de orientações para os gestores públicos que melhor assegurem a prevenção de danos e ilícitos para os próximos anos e garantam o estabelecimento de parâmetros de razoabilidade e proporcionalidade para realização desses gastos, e com a orientação da população sobre a importância de sua participação no controle social.

No entendimento do presidente do TCM, Plínio Carneiro, prevenção e orientação são as palavras-chave quando o assunto é a fiscalização dos recursos públicos. “Em grande parte das vezes o político não está suficientemente preparado para ser gestor. E ainda há a questão da rotatividade da gestão pública, que é um processo natural da democracia. É aí que entra o nosso papel, de orientar e capacitar os gestores para que façam o controle dos gastos de forma correta. Eu vejo esta reunião como um grande avanço, principalmente no que diz respeito à orientação aos gestores”, concluiu ele.

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  • Casos de covid crescem 198% na Bahia; megaeventos juninos preocupam

    O número de casos da covid-19 voltou a crescer e a estimativa de especialistas é que o São João colabore para um novo surto da doença. Segundo as informações do mais recente boletim epidemiológico da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab), divulgado nesta segunda-feira (13), houve um aumento de 198% no número de contaminações em território baiano na primeira quinzena de junho. Barreiras, Itabuna e Lauro de Freitas são os municípios do interior com o maior número de casos ativos. O quadro acontece dias antes do início das festas juninas, que têm potencial para aglomerar milhares de pessoas nas cidades com tradição na festa.

    Frederico Pasche, doutor em Saúde Coletiva, alerta que a aglomeração e contato entre indivíduos de regiões diferentes devem resultar em um surto ainda maior de 21 a 28 dias após as festas juninas. Além da contaminação, a previsão é o pressionamento do sistema de saúde.

    Essa é a maior preocupação do representante comercial Nivaldo Machado, morador de Barreiras. Ele afirma que ainda não é o momento ideal para a montagem de megaestruturas do São João promovido pela cidade.

    “Quando tem aglomeração, corre o risco de voltar o aumento de casos e superlotar as vagas nos hospitais. Prefiro ir para a roça e ficar só com a minha família do que fazer aglomeração. Muita gente ainda não está vacinada”, diz preocupado com a possibilidade de seus filhos precisarem de algum atendimento e o sistema de saúde estar sobrecarregado.

    A infectologista e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Raquel Stucchi classifica o cenário como “preocupante” devido às duas novas subvariantes da cepa ômicron do coronavírus - a BA.4 e BA.5 -, cuja “transmissão é 50% maior que a ômicron inicial”. Ela também cita a baixa procura pelas doses de reforço como indicativo de um novo surto.

    “Podemos considerar uma quarta onda. Não deve ter impacto tão grande quanto tivemos nas outras ondas em relação à hospitalização e mortalidade. Todos os eventos que levam à aglomeração em ambientes fechados, com muitas pessoas sem máscara e sem vacinação em dia levam ao aumento do risco de adoecimento”, alerta.

    Para o governador Rui Costa (PT), as festas não correm risco de cancelamento (leia ao lado), apesar do aumento dos casos neste mês. Em coletiva, ontem, o gestor afirmou que o governo tem monitorado o panorama de alta, no entanto, mais três critérios são considerados: número de internamentos, vagas nas UTIs e mortes.

    Frederico Pasche discorda, pois as consequências da covid-19 a longo prazo ainda são desconhecidas mesmo para quem desenvolveu sintomas leves ou foi assintomático. “Estamos numa quarta onda [...] o vírus vai procurar corpos suscetíveis; crianças não vacinadas, jovens sem ciclo vacinal completo, idosos sem quarta dose. O vírus vai encontrar corpos para se instalar. Estamos colocando essas pessoas em risco”, alerta.

    Sabendo da potência junina no estado, especialistas orientam os governos que tenham responsabilidade sanitária e que lembrem a população sobre a possibilidade de contrair o vírus em aglomerações, orientando o uso de máscaras em espaços abertos e aglomerados. Outra recomendação é realizar a testagem durante o evento.

    “A gente tem tido uma gestão, do ponto de vista das autoridades sanitárias, muito irresponsável. Não é à toa que o Brasil é um dos grandes responsáveis pelo grande número de óbitos. Os gestores não quiseram compreender efetivamente [a covid]”, aponta Pasche.

    Em Salvador, o prefeito Bruno Reis afirma que o aumento de casos não está impactando o sistema de saúde e recomenda para quem vai festejar o São João no interior: "Tomem a vacina. Ampliamos a oferta e pedimos que todos que puderem se vacinar, principalmente, aquelas pessoas que vão para o interior, que vá com o ciclo vacinal completo", afirma.

    No interior

    Segundo a prefeitura de Barreiras, ontem ocorreu reunião do Comitê de Operações de Emergência em Saúde Pública (COE) para avaliar a necessidade de medidas preventivas. As providências, no entanto, ainda não foram divulgadas. Por enquanto, a atividade é a monitoração do quadro epidemiológico. "Na última semana tivemos 56 casos de covid e seguimos com 47 pessoas em isolamento. Até então, continuamos sem pacientes internados no município”, pontua o secretário de saúde Melchisedec Neves.

    “Deveria pedir passaporte da vacinação para quem está vacinado entrar, assim como pode ter medição da temperatura”, sugere o morador Nivaldo Machado.
    A prefeitura de Itabuna tem seguido a mesma linha de monitorar os casos graves. De acordo com a administração do município, não há internamento por covid-19 na cidade e, apesar dos números de pacientes ativos, as infecções estão brandas. No período junino, é tradição em Itabuna a festa de São Pedro, que ocorre de 30 de junho a 3 de julho. Algumas das atrações confirmadas são João Gomes, Tarcísio do Acordeon e Bel Marques. A prefeitura, porém, não respondeu quais medidas pretende tomar contra a disseminação da covid no evento.

    Já a prefeitura de Lauro de Freitas, cidade que tem 95 casos, afirmou que a população deve apresentar certificado de vacinação no ‘Arraiá de Ipitanga’, mesmo com o esquema vacinal completo. A medida tem concordância com as sugestões de moradores do município, a exemplo de Carolina Lima, 19 anos, estagiária de docência.

    “Me preocupo mais com meu desempenho no trabalho, atuo com crianças que têm a imunidade baixa normalmente e trazem esses vírus. Com isso, já fiquei doente mais de 3 vezes, com amigdalite, e precisei interromper as aulas. Além do risco de contaminar minha família, já que moro com meus pais e irmãos”, conta ela, que sugere à prefeitura que cobre a terceira dose como obrigatória para entrada nos eventos. “Não acho que se o uso da máscara for obrigatório haverá fiscalização. Então, pelo menos a terceira dose obrigatória. Além de ter pontos de álcool em gel”, diz.

    Morador de Vitória da Conquista, quarta cidade do interior com mais casos ativos, o controller de 42 anos Fábio de Jesus acredita que a festa deveria ser adiada até haver controle da proliferação. “Baseado nessa questão do aumento de [cerca de] 200%, [a prefeitura] deveria rever a comemoração. Talvez diminuir a quantidade de gente em certos locais, manter uma festa com todos os cuidados possíveis. Acho muito perigosa aglomeração nesse momento. Pior que não vai ser só aqui, também vai ser em outros lugares”, lamenta.

    A prefeitura de Vitória da Conquista não retornou o contato da reportagem para responder sobre as medidas de proteção no ‘Arraiá da Conquista’.
    Na linha contrária dos moradores, a costureira Maria da Silva, 65, vai viajar para comemorar o São João em Senhor do Bonfim. Embora a cidade não apareça na lista de 10 municípios com mais casos ativos, é esperado grande fluxo por ter uma das principais festas juninas da Bahia. “Sempre frequento o forró do jegue, tradição na cidade. No entanto, é em um clube com ambiente fechado. Esse ano não vou participar. Devo ficar na varanda da casa em que vou ficar, ela fica de frente para uma praça que sempre têm atrações”

    Vacinação

    Um total de 3,6 milhões de baianos estão com a dose de reforço anticovid em atraso, informa a Sesab. No estado, apenas 48% da população já tomou a terceira injeção, seja em dia ou com algum atraso. Enquanto isso, 2,4 milhões ainda não foram tomar a segunda dose de reforço, a quarta dose, oferecida para pessoas a partir de 50 anos, profissionais de saúde, idosos e imunossuprimidos.

    A infectologista Raquel Stucchi explica que as modificações comuns e frequentes [mutações] que acontecem com os vírus podem causar sintomas dos mais leves aos mais graves ou, ainda, tentar escapar da defesa das vacinas. “É preciso, portanto, manter uma quantidade maior de anticorpos para impedir que o vírus cause a forma mais grave da doença. Essa função é exercida pelas doses de reforço”.

    A orientação do epidemiologista Paulo Petry é completar o ciclo vacinal e manter o uso de máscaras com maior poder de filtração como a cirúrgica e PFF2. "Se as pessoas estiverem aglomeradas, ainda em locais abertos nessas festas, a transmissibilidade do vírus vai ser alta. Essas novas variantes e subvariantes da ômicron são altamente transmissíveis”, ressalta.

    Já Stucchi dá instruções para quem estiver com sintomas. “As pessoas que tiverem qualquer sintoma como dor de garganta e nariz escorrendo devem fazer o teste. Se for positivo, fique em casa, se negativo e os sintomas persistirem, devem repetir o teste em 48h. Neste período [é preciso] ficar em casa ou usar máscara N95 se tiver de sair”.

    Quem seguiu o exemplo foi o estudante de comunicação, Pedro Beno, de 22 anos. O jovem testou positivo na semana passada e cancelou os planos de viajar a Lençóis, na Chapada Diamantina, para curtir o São João. “Eu estava na dúvida de viajaria para lençóis com meu pai ou ficaria em casa com minha mãe, parece que agora só vou ter uma opção”, brinca. Vacinado, o jovem desenvolveu sintomas leves, como dor de cabeça, coriza e enxaqueca.

    Municípios com mais casos ativos na Bahia (13/06):

    Salvador - 956 casos
    Barreiras - 168 casos
    Itabuna - 132 casos
    Lauro de Freitas - 95
    Vitória da Conquista - 91
    Santo Antônio de Jesus -74
    Feira de Santana - 73
    Porto Seguro - 53
    Brumado - 51
    Canápolis - 47

  • Uso de máscara volta a ser obrigatório na Uneb e na Uefs

    O crescimento do número de casos da covid-19 no estado acendeu um alerta em duas universidades estaduais. Mesmo com o decreto estadual que liberou a obrigatoriedade do uso de máscaras no estado, tanto a Universidade do Estado da Bahia (Uneb) quanto a Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) voltaram a tornar obrigatório o uso nas suas dependências.

    "Considerando o aumento de casos ativos da Covid-19 nos municípios em que a Universidade do Estado da Bahia desenvolve atividades e as orientações do Comitê de Biossegurança (Cobio) da instituição, a Reitoria da Uneb recomenda o retorno do uso de máscaras dentro de todos os ambientes administrativos e acadêmicos da instituição, nas instalações do interior do estado e da capital, visando à prevenção e ao controle epidemiológico", diz comunicado divulgado pela instituição.

    A instituição destaca ainda que a Administração Central da Uneb segue promovendo uma série de ações para o acolhimento da comunidade acadêmica e para a garantia das condições de biossegurança, em todos os campi, sempre pautada pela preservação da vida e pela confiança na ciência.

    Já a Administração Central da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) comunicou que tornou obrigatório o uso de máscaras em espaços fechados do campus universitário e também das unidades extra campus. A medida passou a valer na última quarta-feira (8) e foi recomendada pelo Comitê Emergencial para o Enfrentamento da Crise da COVID-19 e pelo Comitê do Plano de Retomada das Atividades Presenciais. A decisão está amparada no Artigo 9ºB da Resolução Consepe 042/2022, e foi oficializada por uma portaria a ser publicada no Diário Oficial do Estado na última quarta-feira.

    "A decisão foi tomada após o crescimento do número de casos e de contaminações por covid-19, no estado da Bahia e no Brasil, e tem como princípio a manutenção de ações que visem o cuidado com a vida de quem compõe a comunidade universitária. Em tempo, a Administração Central lembra que a Instituição mantém vigilância epidemiológica constante para a detecção de qualquer caso suspeito de infecção pelo SARS-CoV-2 (vírus causador da COVID- 19) com a realização de exames, na Sala de Testagem (MT 62)", diz o comunicado da Uefs.

    A universidade orientou ainda que as pessoas sintomáticas (sinais de gripe ou resfriado) ou potencialmente em contato com transmissores, devem se ausentar das atividades rotineiras e realizar teste para COVID-19. E para aqueles que ainda não completaram o esquema vacinal, fica o alerta de fazerem o quanto antes.

  • Sem dinheiro para o gás, baianos se arriscam usando álcool e lixo para cozinhar

    A catadora de materiais recicláveis Lucileide Pereira nunca teve tanta dificuldade para pôr comida na mesa quanto nos quatro últimos meses. Moradora de um barraco na comunidade de Vila Vitória, em Fazenda Grande IV, tem utilizado álcool, galhos e até lixo, como restos de resíduos plásticos, para acender a lenha onde cozinha, do lado de fora da sua residência. Isso porque não tem mais dinheiro para custear o gás de cozinha.

    O mais recente dos sucessivos aumentos no preço do GLP gerou um valor médio do botijão em Salvador e Região Metropolitana de R$ 122, de acordo com o Sindicato dos Revendedores de Gás. Na Bahia, o preço flutua e, em média, custa R$ 127.

    No mesmo período, cresceu a quantidade de acidentes com queimaduras. De acordo com a Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), o número de queimados aumentou 18,75% na Bahia no primeiro trimestre de 2022 comparado ao mesmo período do ano anterior.

    Enquanto em 2021 a quantidade de queimaduras registradas nos três primeiros meses do ano foi de 384, em 2022, o número saltou para 456. As queimaduras não são lesões de notificação obrigatória nos hospitais públicos da Bahia. Ainda de acordo com a secretaria, até março deste ano, 198 pessoas foram internadas no estado por conta de queimaduras.

    Embora a Sesab não tenha informado as causas, um estudo publicado pela Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ) aponta a relação direta entre a incidência das queimaduras por líquidos inflamáveis, especialmente o álcool, e o preço do gás liquefeito de petróleo.

    José Adorno, cirurgião plástico e presidente da associação, explica que a substituição do gás por essas substâncias é a responsável por grande parte dos acidentes domésticos, especialmente durante a pandemia. A flexibilização da venda da substância pela Anvisa e, consequentemente, o uso indiscriminado do álcool, apenas intensificaram a quantidade de casos.

    "Em levantamento que fizemos de março e setembro de 2020, em publicação que será ainda lançada, verificamos que tivemos cerca 700 internações motivadas por álcool em todo o Brasil, e mais de metade dos casos foram acidentes domésticos. Então, a correlação de casos de queimadura acontece tanto com o uso maior do álcool, quanto com o aumento dos preços do gás", esclarece Adorno.

    A SBQ foi fundada em 1995 e é uma entidade associativa que reúne multiprofissionais, e que promove campanhas de prevenção de acidentes.

    Em 2017, também foi lançada pela SBQ uma pesquisa que aponta que, com o aumento do preço do GLP, também houve um aumento de mais de 366% das queimaduras por álcool entre janeiro e novembro de 2017, em comparação ao mesmo período de 2016. O sexo feminino predomina entre as vítimas, e a faixa etária mais acometida é a dos adultos entre 18 e 59 anos. Nesse público, se encaixa não só Lucineide, como Jucelina e Jorgina, suas irmãs.

    Em comum entre as três, além dos pais, está o fato de que lidam, todos os dias, com os riscos de queimaduras na cozinha. Jucelina, que usa álcool, carvão e lenha para cozinhar, já se queimou tantas vezes que não consegue contar.

    “Minhas vistas doem muito, e sempre me queimo, mas não chegou a ser grave ao ponto de precisar de hospital”, diz.

    Desempregada, está em busca de um emprego como faxineira, mas até trabalhos autônomos não estão fáceis de encontrar, explica.

    Jorgina Pereira, por sua vez, não chegou a sofrer danos físicos, mas sua casa já. O teto do imóvel, onde mora com quatro crianças, pegou fogo. Embora ninguém tenha ficado ferido, ela não teve condições de deixar de cozinhar de formas alternativas. “É muito perigoso, mas às vezes tenho que usar para não deixar de cozinhar”, diz.

    Ela ressalta, no entanto, que só largou o gás há dois meses, quando passou a cozinhar na lenha, com carvão e álcool. Irmã mais velha das três, Jorgina também atua como catadora de materiais recicláveis. “Com esse tempo chuvoso, ganho ainda menos, de R$ 15 a R$ 20 no dia, e vivo da renda do Bolsa Família [Auxílio Brasil]. Com o auxílio, às vezes, não consigo comprar o gás, embora já me ajude muito”, relata.

    O mesmo acontece com Lucileide, que tem dois filhos, de 9 e 11 anos. Utiliza um facão para cortar a lenha, que encontra em matos próximos de casa. Para acender o fogo, usa desde sacos plásticos até garrafas de água sanitária. Quando o fogo acende, coloca uma panela em cima, para que ele se mantenha. E guarda as comidas todas na geladeira, rezando para que não chova de novo. Assim tem vivido há quatro meses, quando as dificuldades se intensificaram.

    "Quando consigo um trabalho, é para comprar alimentação para casa, um feijão, um arroz, que agora tá até caro demais. Pior é quando chove, que preciso deixar estiar para fazer alguma coisa, já que a lenha fica molhada, e aí nem consigo acender o fogo", lamenta.

    Política de preços internacional
    O aumento do preço do gás de cozinha está diretamente ligado ao acréscimo de preço do barril de petróleo na cotação internacional, como explica o economista e integrante do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), Alex Gama.

    Tanto a Petrobras, como a Acelen, empresa privada que controla a Refinaria de Mataripe desde dezembro de 2021, utilizam a política de Preço de Paridade Internacional (PPI). Esse formato considera o preço dos combustíveis praticado no mercado externo.

    "A política das empresas é que haja um reajuste toda vez que ocorra desvalorização do câmbio e aumento do preço do barril. O preço do gás de cozinha, em cerca de R$ 120, representa quase 10% do salário mínimo, o que pesa bastante na cesta de consumo das famílias", diz o economista.

    Para Gama, a principal causa do aumento do preço do petróleo no exterior ainda é a guerra entre Rússia e Ucrânia, que reduziu a oferta do gás no mercado europeu. O confronto já se desenrola há mais de 100 dias.

    O aumento dos preços, no entanto, é anterior à pandemia. Em março de 2020, o preço do botijão de gás na Bahia custava cerca de R$ 65, de acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em novembro do ano passado, o produto já era encontrado por R$ 95 no estado.

    "Antes da pandemia, o gás de 13 quilos custava aproximadamente 5,8% do salário mínimo. Após a pandemia passou para 7,3% do salário. Hoje essa relação já passa de 8%. Em resumo: o baiano está tendo que se virar nos trinta para comprar", diz o também economista Cleiton Silva.

    A desvalorização que a moeda brasileira sofre desde 2020 também explica os aumentos progressivos de preço.

    Há formas alternativas e seguras de cozinhar?
    De acordo com o major bombeiro militar Leandro Vialto, é possível cozinhar de forma segura sem a utilização de substâncias inflamáveis, desde que sejam usados equipamentos especificamente desenvolvidos para a tarefa, como panela, fornos e fritadeiras elétricas, fogão e forno à lenha ou churrasqueira.

    "Líquidos inflamáveis são muito voláteis, o que significa, a grosso modo, que geram uma nuvem inflamável ao seu redor. No momento de tentar acender o fogo, há o risco de ter uma explosão dessa nuvem, gerando queimaduras e até mesmo espalhando o combustível em lugares que não se pretendia, começando, assim, um incêndio", explica.

    Em casos como esses, Vialto reforça que, se as chamas de fato se espalharem no caso do uso de um combustível líquido, a chance de apagar só existe se a quantidade de combustível for pequena. O tamanho de um copo, por exemplo. Para isso, a pessoa deve jogar bastante água de forma pulverizada. Se a ação não estiver resolvendo, o recomendado é evacuar o local e ligar para o telefone 193.

    Ele também ressalta as situações em que nunca se deve jogar água. É o caso de uma panela em óleo conversível, como óleo de soja, por exemplo. "A água vira vapor ao entrar em contato com o óleo e empurra o óleo para o alto, formando uma nuvem combustível que pega fogo rapidamente e com muita energia, causando um incêndio e grandes queimaduras na pessoa que tentou jogar a água", alerta.

    Por isso, o recomendado é simplesmente apagar o fogão abaixo da panela e tampá-la, ou utilizar um pano de algodão molhado para cobrir. Sem o contato com o oxigênio, o fogo apaga. A panela deve ser destampada apenas depois de 10 minutos.

    Como proceder em casos de ferimentos
    A médica dermatologista Camila Ribeiro chama atenção para que as vítimas de queimaduras não apelem para cuidados caseiros, especialmente se a lesão for de segundo grau. Diferentemente das lesões de primeiro grau, as de segundo contém o aparecimento de bolhas no local. "As pessoas às vezes colocam manteiga, pó de café, clara de ovo, o que não deve ser feito", aponta.

    A recomendação é resfriar o local machucado com água corrente fria ou um pano limpo úmido. O uso de gelo deve ser evitado porque tem efeito de queimadura. "Em todos os casos de queimaduras mais profundas, em que haja formação de bolhas, acometimento extenso ou de áreas sensíveis, o paciente deve sempre procurar o pronto atendimento", indica a médica. As bolhas nunca devem ser estouradas em casa porque há risco de infecção.

    As queimaduras são divididas em três tipos. Nas de primeiro grau, menos graves, não ocorre o aparecimento de bolhas, pois apenas a camada mais superficial da pele é atingida. No caso das medianas, de segundo grau, além de afetar a epiderme, parte da derme é acometida, por isso são mais profundas. As mais graves, de terceiro grau, prejudicam músculos e ossos.

    "A queimadura de terceiro grau é gravíssima, geralmente o paciente interna, vai para a UTI, e há chances de óbito. Elas não são tão frequentes e costumam precisar de cirurgia", explica Camila Ribeiro.

    Procurada, a Sesab informou que qualquer Unidade de Pronto Atendimento pode fazer o atendimento inicial. Se o caso for mais grave, o paciente é encaminhado para o Hospital Geral do Estado (HGE), referência nesse tipo de tratamento.

    Auxílio Gás
    Há ainda a possibilidade da inscrição no programa Auxílio Gás, promovido pelo Governo Federal, que paga um valor equivalente a 50% do valor médio do botijão de 13 kg. A Caixa Econômica Federal pagará o benefício em conjunto com o Auxílio Brasil, entre os dias 17 e 30 de junho. O Ministério da Cidadania ainda não informou quanto cada família receberá neste mês.

    São elegíveis ao Programa Auxílio Gás dos Brasileiros todas as famílias inscritas no CadÚnico, com renda familiar mensal menor ou igual a meio salário-mínimo por pessoa, inclusive as famílias que recebem benefícios de programas do governo. Além disso, podem requerer famílias que tenham alguma pessoa que mora na mesma casa, que recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC) da assistência social, inscritas ou não no CadÚnico.

    Grupos familiares com mulheres vítimas de violência doméstica que estejam sob o monitoramento de medidas protetivas de urgência terão preferência na concessão do benefício.

    Para receber o auxílio, é necessário fazer um registro no aplicativo Caixa Tem, por onde é realizado o repasse do benefício. Ainda é possível movimentar e utilizar o auxílio para realizar pagamentos de contas e compras com os benefícios do governo, com um cartão de débito virtual.

    Caso tenha dúvidas em relação a ter direito ou não ao benefício, entre em contato com o Canal de Atendimento ao Cidadão, através do número 111.

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