Na Bahia, 76% dos professores tiveram doenças psicológicas na pandemia

Na Bahia, 76% dos professores tiveram doenças psicológicas na pandemia

A professora Lucia Maria* nunca teve nenhuma doença mental durante os seus 17 anos de ensino. “Foi a partir daquele 17 de março de 2020 que os sintomas surgiram”, diz. Essa é a data em que a primeira morte de um paciente com covid-19 foi registrada no Brasil. O medo da doença misturado aos desafios de continuar as aulas por meio remoto mexeu com o psicológico dela. Na Bahia, 76% dos professores foram cometidos por doenças em 2020. As crises de ansiedade, de pânico e depressão foram apontadas como os casos mais frequentes.

Quem diz isso é o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado da Bahia (APLB) que entrevistou mais de 6 mil professores da rede municipal e estadual de toda a Bahia. Nesse 15 de outubro, Dia do Professor, a APLB alerta a importância de a categoria cuidar da saúde mental. “Em 2021, já percebemos o aparecimento de casos mais graves ainda. Tivemos um aumento de 45% no atendimento de professores com a síndrome de burnout, por exemplo”, relata a psicanalista e professora aposentada Zenaide Barbosa Ribeiro, diretora da APLB.

Ela acredita que o aumento desses casos graves foi causado pela falta de preparo dos professores para fazer o ensino remoto e, agora, o presencial. “Não pensaram na saúde mental deles quando fizeram esse retorno. As escolas estão despreparadas e os alunos não usam máscara ou fazem um distanciamento adequado. Os professores ficam perdidos assim. Nessa semana mesmo, atendi um caso bem grave”, relata.

Ainda para Zenaide, a maior parte das doenças dos trabalhadores da educação foi causada por problemas psíquicos durante a pandemia. “São problemas de saúde que vieram da ordem emocional. Tanto que, depois que começa a terapia, nós percebemos uma melhora no quadro geral de saúde”, diz. Ela ajudou a implantar, em abril de 2020, um projeto no sindicato que atende os profissionais que precisam de assistência psicológica.

“Começamos com três psicólogos e hoje estamos com 14. Mesmo assim, ainda temos fila de espera com 15 professores. Por mês, em média, são feitos 476 atendimentos. Todos os psicólogos trabalham por um valor social pago pela própria APLB. Nós até tentamos fazer uma parceria com o Governo do Estado, mas eles queriam que os psicólogos trabalhassem de graça. Assim não dava”, comenta.

Desde o início da implantação do projeto que a professora Lucia é uma das atendidas. No decorrer do atendimento, ela precisou ser encaminhada para tratamento psiquiátrico, ofertado pelo Planserv, em que foi diagnosticado a ansiedade. Até hoje ela toma remédios devido à doença. “Eu me arrependo de não ter procurado ajuda quando os sintomas começaram. Depois que busquei esse atendimento, minha situação melhorou muito”, diz.

Professores relatam dificuldades vividas na pandemia
Eunice Novais dos Santos, 54 anos, é mais conhecida como professora Loide. Ela trabalha na rede municipal de Sapeaçu, mas já está aposentada pelo Estado desde fevereiro de 2020, ou seja, um mês antes de começar a pandemia. Curiosamente, seus problemas psicológicos começaram quando a tão sonhada aposentadoria saiu. “Passei a receber menos do que o previsto e, misturando com todos os problemas da pandemia e crise financeira, minha vida virou um caos”, lembra.

Pró Loide, como gosta de ser chamada, chegou a ter síndrome do pânico. Hoje, é acompanhada quase que diariamente por profissionais especializados. “Meu desafio nem foi a questão da sala de aula. Eu até me adaptei bem às aulas remotas. O difícil foi encarar a perda de salário num momento tão difícil”, diz. Segundo o levantamento da APLB, 36% dos professores baianos tiveram redução na remuneração durante a pandemia.

Já Joana* ensina na rede estadual de Salvador e começou a apresentar sintomas de ansiedade no início da pandemia, o que foi acentuado no início das aulas remotas e, agora, com as aulas presenciais. “Ainda está sendo terrível, pois a vacinação está mais ampla e os alunos não sentem a pandemia como um perigo que os afetam. Eles ficam muito juntos e não usam máscara. Eu realmente não sei como vamos acolher um número grande de alunos na sala”, diz. Nesse Dia do Professor, Joana* não tem muito o que comemorar.

“Nos meus 31 anos como professora, nunca tive uma oportunidade de fazer terapia. Eles deveriam fazer projetos mais amplos como esse, mas não tenho certeza se nós somos tão importantes assim. O que vivemos em sala de aula não me faz crer que somos importantes. E a coisa só está piorando. Por isso, não vejo a hora de tentar sair para fazer algo que me dá mais prazer. Tento me aposentar há dois anos. Quando eu comecei a ensinar, tinha tantos planos. Hoje nem sequer reconheço aquela professora do passado. A procuro e não encontro”, desabafa.

Na próxima segunda-feira (18), o ensino 100% presencial na rede estadual será retomado. A APLB acionou os Ministérios Públicos da Bahia (MPBA) e do Trabalho (MPT), na tentativa de que as duas entidades ajudem na intermediação da classe junto ao governo do estado. Segundo o coordenador geral do Sindicato, Rui Oliveira, a categoria não se sente segura e quer manter o modelo híbrido de ensino. Nesta quinta-feira (14), ele ia se reunir com Jerônimo Rodrigues, secretário de Educação, para tratar do assunto. A conversa foi adiada para hoje, às 9h.

Em resposta à reportagem, a Secretaria da Educação do Estado (SEC), informou que desenvolve o Programa de Atenção à Saúde e Valorização do Professor, “com objetivo de reabilitar, prevenir e promover a saúde do docente, prestando assistência e apoio a esses profissionais”. O programa conta com uma equipe multidisciplinar que atua nas áreas de Psicologia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Assistência Social e Nutrição em todos os 27 Núcleos Territoriais de Educação (NTEs).

Já a Secretaria Municipal de Educação (SMEI) respondeu que "não houve registros de doenças psicossomáticas dos trabalhadores acima dos níveis históricos registrados".

A nota enviada pela órgão também lembrou dos desafios da pandemia e que para minimizar os impactos, a prefeitura de Salvador manteve os salários dos professores em dia.

Dicas para cuidar da saúde mental durante a pandemia:

Descanse. O sono regular interfere diretamente no equilíbrio emocional. Busque atividades que auxiliem no sono profundo e de qualidade.

Alimente-se bem. Ter atenção ao que se come e priorizar uma dieta balanceada permite a ingestão de todos os nutrientes necessários ao organismo.

Evite drogas como escape do estresse. Álcool e tabaco se tornam vícios e, a longo prazo, causam muito malefícios à saúde física e mental.

Fortaleça seus contatos, ainda que à distância. Uma conversa com amigos ou com a família por mensagens, ligações telefônicas ou videochamadas pode aliviar sensações ruins.

Tire um tempo para você. Não preencha seus dias apenas com atividades obrigatórias - libere um espaço na sua agenda para atividades de lazer

*Fonte: Laboratório Pfizer

Para especialista, escolas devem priorizar saúde mental dos funcionários
“Para que a saúde mental dos profissionais de educação seja priorizada, deve haver um ambiente saudável nas instituições”. Isso é o que defende a psicopedagoga Niclecia Gama, especialista em educação infantil e contação de histórias. “As escolas precisam ser ambientes de humanização não só dos estudantes, mas também dos profissionais que trabalham lá, tantos professores como funcionários. Isso vai ajudar que elas não adoeçam”, conta.

Ainda segundo a especialista, há na rede de educação um considerado quadro de afastamento dos professores por problemas de saúde mental causados por abuso de autoridade ou assédio moral nas escolas. “São consequências de um ambiente tóxico que existem nas instituições. Infelizmente, não há um programa de saúde mental para os profissionais da educação em Salvador”, comenta.

Professora municipal da capital baiana, Niclecia cita o exemplo que a sua instituição de ensino, o Centro Municipal de Educação Infantil José Adeodato de Souza Filho, fez durante a pandemia para cuidar da saúde mental dos professores e funcionários.

“Pensamos numa estratégia para fazer o ensino remoto sem sobrecarregar os professores. Tínhamos reuniões semanais e dividimos a equipe em subgrupos. Cada semana, um subgrupo era responsável por elaborar, gravar e editar os vídeos enviados para as famílias dos alunos. Dessa forma, a sobrecarga foi aliviada e tivemos bons retornos dos familiares. Isso só foi possível por conta do modelo de gerenciamento da unidade, que tem sempre um canal aberto para nos escutar”, diz.

A sobrecarga no trabalho citada por Niclecia também é apontada pela APLB como motivo de adoecimento dos profissionais. “Eles tiveram que transformar sua casa em locais de trabalho e assumir constantemente funções que não eram suas, como a de editor de vídeo, por exemplo”, explica Zenaide.

Sinais para ter atenção:
Sono (alterações; não conseguir dormir; dormir demais; sono bagunçado, etc);
Alimentação (perda de apetite; comer muito mais ou muito menos do que normalmente come);
Tristeza muito forte e frequente (muito além de uma tristeza normal);
Hipersensibilidade;
Humor alterado;
Ansiedade patológica (é normal ficar ansioso nesse contexto, mas uma ansiedade que tira o sono não é normal);
Não conseguir ter a rotina;
Taquicardia e respiração ofegante;
Falta de motivação;
Dificuldade para organizar o pensamento;
Pensamentos catastróficos com frequência;
Abuso de álcool e drogas;
Não conseguir ter contato com as pessoas que gosta;
Feedback familiar (se outras pessoas, que convivem com você, têm notado alterações no seu comportamento).
Principais doenças psiquiátricas na pandemia
Ansiedade: Todo mundo pode estar ansioso em algum momento. No entanto, a ansiedade patológica é quando esse sentimento é excessivo e interfere na vida cotidiana. É uma preocupação intensa e persistente que pode envolver dor no peito, frequência cardíaca elevada, tremores e respiração ofegante.

Depressão: A depressão é um dos transtornos de humor. É uma doença crônica que provoca uma tristeza profunda e forte sentimento de desesperança. Pode vir associada a dor, amargura, desencanto e culpa, além de alterações de apetite e no sono.

Transtorno bipolar: Também é um dos transtornos de humor. Nesse caso, é uma doença marcada pela alternância entre períodos de depressão e períodos de euforia (mania). Os episódios de mania podem incluir perda de contato com a realidade e falta de sono. Cada episódio pode durar dias, meses ou semanas, além de vir com pensamentos suicidas.

Síndrome do pânico: O transtorno do pânico envolve crises repentinas de ansiedade aguda, vindas de forma inexplicável. Costumam ser associadas a medo e desespero, com a sensação de que a pessoa vai morrer ou enlouquecer. Ataques de pânico podem também um sintoma da ansiedade.

Onde buscar ajuda de graça ou com 'valor social':
CVV: É gratuito em todo o país e funciona 24 horas por dia, através dos telefones (71) 3322-4111 ou 188 e do site www.cvv.org.br.

Programa Escuta Acessível: Atendimento psicológico online ou presencial com valor social. Entre em contato pelo WhatsApp (71) 99637-1226 e faça seu agendamento. O psicólogo Anibal Dantas atua nesse projeto. “A sessão ou o valor mensal fica bem acessível, chegando a mais de 50% de desconto no valor real dos honorários”, explica.

Escola Bahiana de Medicina: A clínica de psicologia tem atendimentos com valores sociais. É preciso entrar em contato pelos telefones (71) 3286-8259, (71) 99249-3483 ou (71) 99287-3091 para fazer o agendamento. Os atendimentos estão ocorrendo de forma online e presencial de segunda a sexta, das 8h às 12h e 13h às 17h.

UniFTC: A instituição mantém o Ambulatório de Saúde Mental, espaço que disponibiliza atendimento interprofissional e conta com atendimentos gratuitos por dois modos:

Modalidade Plantão Psicológico: Um espaço de acolhimento e escuta especializada, na modalidade online, oferecido por profissionais da psicologia de modo pontual. Possui caráter breve, com foco no atendimento em momento de necessidade daquele que busca o serviço. Disponível de segunda a quinta, de 8h às 12h e de 14h às 18h. Nessa modalidade a pessoa não precisa de agendamento. Poderá realizar o atendimento com o profissional disponível no plantão. Link de acesso: bit.ly/plantaopsicologico_uniftc

Modalidade Atendimento Convencional: Os serviços disponibilizados à comunidade contemplam os projetos de acolhimento psicológico, grupos terapêuticos com adolescentes, grupos terapêuticos com idosos, grupos terapêuticos com professores, grupos terapêuticos com comunidade LGBTQIA+, grupo de acolhimento a ansiedade em tempos de pandemia, grupo de gestantes e puérperas, orientação profissional, clínica do trabalho, clínica do luto, psicoterapia individual. Sujeito a disponibilidade de atendimento e é necessário realizar agendamento. Link de acesso:

Unijorge: Oferece o plantão psicológico, um serviço do curso de psicologia com atendimentos feitos por psicólogos egressos da instituição, que estão inscritos nos Conselhos Regionais de Psicologia e estão autorizados a fazer atendimento virtual. O serviço é feito por telefone, através de plantões com dias e horários pré-determinados. Contato para marcação:

Mônica Hanhoerster
CRP 03/18470
Segunda-feira 18h às 22h
(71) 98113-3519

Lelciu Muniz
CRP 03/22799
Terça-feira 18h às 22h
(71) 98216-1222

Jorge Ícaro Medeiros
CRP 03/22992
Quarta-feira 08h às 12h
(73) 98239-1000

Larissa Caires
CRP 03/23015
Quinta-feira 13h às 17h
(71) 99198-6620

Vandeilton Trindade
CRP 03/23889
Sexta-feira 08h às 12h
(75) 99200-3115.

*Nomes alterados a pedido dos entrevistados

Fonte: Correio*

Itens relacionados (por tag)

  • Surto de covid-19 em Hospital de Itabuna infecta 17 pacientes

    Um surto de covid-19 foi identificado na Enfermaria B do Hospital de Base Luís Eduardo Magalhães (Hblem), na cidade de Itabuna, no sul da Bahia. Na última segunda-feira (22), 38 testes de antígenos e RT-PCR foram realizados e 17 tiveram resultado positivo para a doença. A prefeitura do município afirma que o surto foi contido e isolado, a partir de um plano de contingência.

    Desde a confirmação dos casos, a direção da Fundação de Atenção à Saúde de Itabuna (Fasi), mantenedora do hospital, isolou os pacientes positivos dos demais, intensificou as medidas protetivas e diminuiu o fluxo de acompanhantes e estudantes. Segundo a Fasi, todos os pacientes são testados antes do internamento e realização de cirurgias.

    Ainda não se sabe o que teria dado início a transmissão do vírus, se a doença foi disseminada por um acompanhante ou por um profissional. Não há informação precisa de quando os testes foram realizados, mas uma investigação foi iniciada para tentar elucidar o ocorrido.

    O caso em Itabuna é mais um que surge no momento em que o estado apresenta surtos de covid-19, que não vinham sendo registrados recentemente. Na quarta-feira da semana passada (17), o Hospital Geral Roberto Santos, em Salvador, registrou, pelo menos, 18 casos de infecção por covid-19. Devido às contaminações, que foram identificadas na emergência da unidade, pacientes tiveram que ser transferidos e a visitação foi suspensa.

    Nesta quinta-feira (25), o CORREIO publicou uma denúncia de uma moradora de Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, sobre um suposto surto de coronavírus que estaria ocorrendo entre funcionários de quatro instituições de ensino municipal da cidade. Segundo ela, a gestão municipal estaria tentando abafar os registros positivos. Procurada pela reportagem, a Prefeitura de Camaçari confirmou casos da doença em duas instituições.

  • Eleita nesta quarta, Daniela Borges será a primeira mulher a presidir a OAB-BA

    A advogada Daniela Borges, da chapa União pela Advocacia, será a primeira mulher a presidir a Ordem dos Advogados do Brasil - Seção Bahia (OAB-BA). A eleição aconteceu nesta quarta-feira, 24, das 9h às 17h, em 104 seções eleitorais, 50 em Salvador e 54 no interior. Foi a primeira vez na história que a eleição para a diretoria da entidade contou com candidatas à presidência.

    Até o fechamento desta edição, 95 das 104 seções tinham sido apuradas , restando ainda 9 no interior. Os dados parciais, até às 22h desta quarta, mostram que a chapa vencedora obteve 4.827 votos (46.38%). Em segundo, ficou a chapa OAB de Coração, com 3.933 votos (37.79%), seguida de OAB para Valer, com 514 votos (4.94%) e Liberta OAB, com 357 votos (3.43%). Os votos nulos somaram 465 (4.47%).

    A chapa vencedora, União pela Advocacia, tinha Daniela como candidata à presidência e, para vice, Christianne Gurgel. Daniela é mestra em Direito Tributário, professora da Universidade Federal da Bahia e da Faculdade Bahiana de Direito, Conselheira Federal e presidente da Comissão Nacional da Mulher Advogada. Suas principais propostas são garantir uma melhor remuneração para os advogados e melhorias do judiciário.

    A nova diretoria tomará posse em janeiro de 2022 para liderar a OAB-BA pelos próximos três anos. Ontem, também foram eleitos os membros do Conselho Seccional e de sua Diretoria, dos Conselheiros Federais, da Diretoria da Caixa de Assistência dos Advogados e das Diretorias das Subseções (veja os nomes dos eleitos no final da reportagem).

    Outras candidaturas

    A eleição contou com quatro chapas, sendo duas delas encabeçadas por mulheres. Na OAB de Coração, a candidata à presidência foi Ana Patrícia Dantas Leão e à vice-presidência, Carlos Tourinho. Ana Patrícia é especialista em Direito Processual Civil e já foi duas vezes vice-presidente da OAB-Bahia. A principal proposta era a reestruturação do poder judiciário desoneração fiscal do TJ, extinção das varas de substituição, reativação das comarcas, valorização de honorários profissionais e isenção da anuidade para jovens advogados.

    O candidato à presidência pela chapa Liberta OAB, Ricardo Nogueira, tinha como candidata à vice Tatiana Fernandes Chaves. Ricardo é pós-graduado em Direito Público, foi membro da Associação Comercial da Bahia (ACB) e, hoje, integra a diretoria do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHBa). A principal proposta era reduzir a anuidade da OAB-BA de R$ 850 para R$ 500, juntamente com a reabertura dos fóruns e a reformulação das comissões do órgão.

    A quarta chapa era a OAB Para Valer, com o candidato à presidência Dinailton Oliveira e como candidata à vice D’jane Santos Silva. Dinailton é doutorando em Direito Público e já foi presidente da OAB-Bahia entre 2004 e 2006. A principal proposta da chapa era abrir a OAB para todos os advogados e para a sociedade, além da reestruturação do poder judiciário.

    Dia de votação

    A estimativa era de que mais de 27 mil advogados comparecessem às urnas. A votação aconteceu no novo Centro de Convenções, em Salvador, e em mais 42 endereços distribuídos nas 36 Subseções do interior do estado.

    Na entrada do Centro de Convenções havia música e uma grande concentração de pessoas. Tinha gente com camisa personalizada, adesivos, bandeiras e balões em apoio às candidatas Ana Patrícia Leão e Daniela Borges. Era praticamente impossível chegar até a seção de votação sem um adesivo colado no corpo e até o homem-aranha marcou presença. Uma pessoa fantasiada dançava e animava advogados que chegavam para votar.

    Advogada há 10 anos, Camila Dantas, 33, diz que ficou surpresa com a proporção que a eleição de 2021 tomou. “Mas eu não acho que isso seja ruim, só espero que, além do quantitativo, seja grande também em qualidade porque o que tanto motiva esses candidatos a buscarem o cargo de presidência é a pergunta de um milhão de reais; eu acredito que alguns têm um projeto pessoal de poder e dominação e outros buscam a mudança e melhoria”, diz.

    Também advogado há 10 anos, Fábio Soares, 46, ressaltou a importância de ir votar com consciência. “A eleição serve para direcionar o nosso futuro com relação à advocacia. Então é importante que as pessoas se engajem para que a gente possa eleger o melhor representante possível. Algumas pessoas querem chegar ao cargo para ‘aparecer’ e outras realmente estão querendo melhorar o cenário que temos, então é preciso saber identificar quem é quem e fazer a escolha certa”, opinou.

    Eleição teve confusão desde as pré-candidaturas

    Toda a eleição da OAB-Bahia de 2021 foi marcada por acusações e polêmicas entre os postulantes desde a pré-candidatura. A atual vice-presidente e candidata a presidente Ana Patrícia Leão foi acusada de trair o grupo ao qual pertencia quando decidiu lançar sua pré-candidatura. A chapa também teve o comitê principal da campanha vandalizado na madrugada de 1º de novembro, no Rio Vermelho, em Salvador.

    Sobre os ataques, Ana Patrícia comentou: “Eu nunca aceitei ser um símbolo ou uma fotografia, sempre quis que a mulher tivesse um espaço de poder real e por isso eu fui contra àqueles que têm um discurso de valorização da mulher, mas, na verdade, querem elas sentadas e aguardando o convite da vez delas. Quiseram taxar isso como traição, tratar de forma raivosa o que é independência e liberdade”, disse.

    Outra acusação foi a de que a campanha de Ana Patrícia teria recebido investimentos do grupo do ex-presidente da OAB Nacional, Marcus Vinicius Furtado Côelho e permitido uma interferência indevida do âmbito do Judiciário, com pedidos de juízes e desembargadores a advogados para votarem em Ana Patrícia.

    “Essas acusações são machistas. Dizem que a minha campanha teve financiamento de homens, não aceitam que uma mulher tenha condições de ter um grupo, de criar uma oposição competitiva e responsável. Eu desafio que deem o nome de um político ou um juiz que me apoie financeiramente; não é quem está nas minhas fotos; isso é uma covardia tentar destruir a minha imagem e história com fake news”, se defendeu.

    A Chapa OAB de Coração, liderada por Ana Patrícia e pelo advogado Carlos Tourinho, pediu a cassação do registro do grupo da situação, representado por Daniela Borges. De acordo com a acusação, a chapa de Daniela teria cometido fraude eleitoral no momento em que admitiu a inscrição da advogada Dandara Amazzi Lucas Pinho na chapa. Dandara seria servidora comissionada da Câmara Municipal de Salvador e não estaria exonerada no momento que foi inserida na disputa. Também foi registrada, por esse motivo, impugnação da chapa de Daniela.

    Daniela Borges comentou o caso. “Eu acho lamentável que a gente tenha visto nessa eleição tantos episódios de ataques, tantas fake news. Foram trazidas para as eleições institucionais práticas da mais rasteira política eleitoral, inclusive com ataques pessoais a candidatos e apoiadores da nossa chapa. Chego até aqui com a certeza de que fizemos uma campanha ética e propositiva, que é o que a advocacia baiana merece”, colocou.

    No dia 7 de novembro, um conteúdo de campanha eleitoral foi publicado na conta da OAB Bahia no Instagram. O card citava supostas propostas da chapa da candidata Daniela Borges e ficou no ar por cerca de meia hora. Além disso, a chapa de Daniela encaminhou propaganda para advogados inscritos na OAB. O ato foi apontado como irregular já que é proibida a utilização de banco de dados da instituição.

    “Sobre a postagem no Instagram, a nossa chapa não tinha nenhum interesse nessa publicação, pelo contrário, nossa imagem foi prejudicada e isso já está sendo apurado pela Polícia Federal; somos os maiores interessados de que o responsável seja identificado. Com relação aos e-mails, a norma autoriza esse envio e nós não obtivemos os e-mails da OAB porque uma boa parte nem recebeu, nós construímos um mailing por nossa conta e isso é permitido”, rebateu Daniela.

    As polêmicas não param por aí. De acordo com o site Juri News, a OAB Nacional pagou mais de R$ 220 mil em aluguel para o até então vice-presidente da OAB Bahia, Luiz Viana Queiroz, em Brasília, que era candidato a conselheiro federal na chapa União pela Advocacia, de Daniela Borges.

    Em sua defesa, Queiroz disse que, quando eleito para a diretoria do Conselho Federal, foi o único dos diretores que se disponibilizou a residir em Brasília e, por isso, o órgão arcou com suas despesas de residência na capital federal. Ele ainda acrescentou que não está lotado no gabinete da representação do governador da Bahia na capital federal. Ele continua lotado na procuradoria judicial do Estado, estando em exercício cumulativo em Brasília.

    O candidato Dinailton Oliveira afirmou que registrou impugnação das chapas de Ana Patrícia e de Daniela Borges por abuso de poder econômico. Ele contesta os valores gastos com as campanhas. “Essa está parecendo uma eleição de governador e presidente da república, com carro de som, bandeirola, balão, flores. Eu confesso que nunca vi uma eleição como essa e já registramos impugnação das duas chapas”, afirmou.

    Segundo o presidente da Comissão Eleitoral, Ademir Ismerim, os registros de impugnação serão julgados. “A comissão vai intimar as chapas para que elas possam se defender. A partir daí, a comissão vai tomar uma decisão”, afirmou.

    Confira os nomes de todos os eleitos:

    Diretoria
    Presidente: Daniela Borges
    Vice-presidente: Christianne Gurgel
    Secretária-geral: Esmeralda Oliveira
    Secretário-geral adjunto: Ubirajara Ávila
    Tesoureiro: Hermes Hilarião

    Conselho Federal
    Fabrício Castro
    Luiz Coutinho
    Luiz Viana
    Mariana Oliveira
    Marilda Miranda
    Silvia Cerqueira

    CAAB - Caixa de Assistência dos Advogados da Bahia
    Maurício Leahy
    Cleia Costa dos Santos
    Ilana Campos
    René Viana
    Filipe Reis
    Juliana Camões
    Vanessa Lopes
    Marcos Bonfim

     

  • Visitas são suspensas após surto de covid na emergência do Hospital Roberto Santos

    Um dia depois de se tornar público o surto de covid-19 no Hospital Roberto Santos, no Cabula, o movimento na frente do local estava menor do que antes. A reportagem esteve na unidade ontem e anteontem e pôde perceber a queda na circulação de pessoas. As visitas estão suspensas, de acordo com a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab). “Eles não estão deixando mais todo mundo entrar. Meu pai levou uma facada e a gente tem que ficar aqui do lado de fora”, disse uma jovem, que não quis ser identificada.

    Ela era uma das poucas pessoas que estavam na frente da emergência. “Acho que meu pai deu sorte, pois o caso dele era muito sério. Se não fosse, talvez ele nem seria recebido aqui. Eu cheguei a ver pessoas buscando atendimento e sendo orientadas a procurar outro lugar”, revela. A suspensão das visitas no local é uma das medidas adotas pela Sesab como “reforço de condutas na assistência ao paciente”.

    O Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde está acompanhando o caso e, em conjunto com outros setores do hospital, está identificando, rastreando as equipes e monitorando os casos negativos que permanecem internados na Emergência para avaliar possíveis sinais e sintomas sugestivos de síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave. No entanto, a pasta não confirmou se essas ações estão sendo feitas também em outras unidades do hospital.

    A esposa de Zenildo de Jesus Santos é uma das internadas na emergência. Ela chegou a ser testada três vezes e todos os resultados foram negativos. “Graças a Deus, a parte onde aconteceu o surto foi do outro lado da emergência. Mas a gente ficou com muito medo, pois ela faz diálise e está no grupo de risco”, diz o rapaz, que revela estar no hospital desde o dia 26 de outubro aguardando a marcação de uma cirurgia da esposa.

    “Quando aconteceu o surto, eu pressionei para que a cirurgia fosse logo marcada, pois seria inadmissível a gente passar quase um mês aqui dentro para ela sair com covid. Aí eles marcaram para essa quarta, às 19h”, afirma.

    Zenildo e a esposa são de Valença e foram transferidos para o Roberto Santos após um problema de saúde da sua esposa. “Desde então, tenho que ficar aqui no hospital, correndo o risco de pegar covid”, reclama. Apesar da proibição das visitas, ele não foi orientado a deixar a emergência. Ele argumenta que isso aconteceu por ele já estar no local quando o surto aconteceu e por causa da dependência da esposa dos seus cuidados. “Sou eu que a levo no banheiro, faço tudo, pois ela não consegue ir sozinha”, afirma.

    Funcionários da emergência evitam falar sobre o assunto
    Enquanto esteve na frente da unidade, nesta terça-feira (23), ou seja, um dia após o surto de covid ter se tornado público, a reportagem teve dificuldade em conversar com funcionários da emergência. Alguns não queriam falar sobre o assunto, nem mesmo sob a condição de anonimato. Outros disseram que não tinham muita informação sobre o caso, mas afirmaram que as medidas estão mais rigorosas, inclusive com a substituição das máscaras descartáveis pela PFF2, considerada mais segura.

    “Eu até prefiro a antiga, pois essa me dá a sensação de que estou levando o vírus para casa, pois não posso descartar. Mas se dizem que é a mais adequada, eu confiro”, revelou uma funcionária da parte administrativa da emergência. “Antes a gente podia circular normalmente em toda unidade. Agora, eu fico apenas exercendo o trabalho na minha parte, para evitar contatos”, afirma.

    Outra trabalhadora, que também não se identificou, disse que a sensação é de melhora na situação de surto. “Eu soube que todos os pacientes que tinham covid já foram transferidos. Isso já dá um alívio. Acho que a tendência agora é melhorar”, aponta.

    Ivanilda Souza Brito, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Saúde do Estado da Bahia (SindSaúdeBahia), disse que notificou a Sesab a prestar mais informações sobre o surto, mas até agora não obteve nenhuma reposta. “Nesse momento tão delicado, onde as pessoas estão brigando por causa de carnaval, é preciso a gente se apropriar desse assunto o mais urgente possível e evitar que o pior aconteça”, pede. O Ministério Público da Bahia também vai acompanhar a situação.

    “O Centro de Apoio Operacional de Defesa da Saúde (Cesau) tomou conhecimento do fato hoje, dia 23, por meio de matéria veiculada pela imprensa e encaminhou o caso para atuação das Promotorias de Justiça com atribuição na área. O procedimento está sob a competência do promotor de Justiça Rogério Queiroz, que já enviou ofício à Diretoria do Hospital Roberto Santos, solicitando que informe, no prazo de 72 horas, o número de pessoas infectadas e as providências adotadas para mitigação dos efeitos e controle do surto. Além disso, ofício foi encaminhado à Superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde (Suvisa/Sesab) para que informe quais medidas foram recomendadas para a mitigação e controle do surto no hospital”, disse o MP, em nota.

    Relembre
    De acordo com a Sesab, houve registro de um surto de Covid-19 na última quinta-feira (18) na emergência do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS). “Todas as medidas de contenção foram feitas para que não houvesse espalhamento do vírus nos demais setores do hospital”, disse a pasta, em nota. Ao todo, nove pacientes testaram positivo para a doença. Eles foram transferidos para unidades de referência para a Covid-19.

    À reportagem, a Sesab chegou a confirmar que outros nove funcionários também tinham testado positivo para covid. Porém, nesta terça-feira, a pasta explicou que houve um equívoco em uma de suas respostas e que não há confirmação de casos em profissionais. De qualquer modo, a Sesab explicou que, quando um trabalhador da saúde é contaminado, seja no Roberto Santos ou em qualquer outra unidade estadual, ele é afastado de suas atividades para que possa se recuperar e também para que não haja espalhamento do vírus.

    Os nomes, idades e estados de saúde dos pacientes que pegaram covid não foram divulgados, nem mesmo o nome do hospítal para onde eles foram transferidos. Na tarde da segunda, uma trabalhadora da emergência, sob a condição de anonimato, chegou a afirmar que ainda haviam seis pacientes contaminados com a covid aguardando a transferência.

    “Tem cinco pacientes com covid. Na verdade, são seis, pois acabou de sair um resultado positivo. O local onde eles estão é vazio, mas a gente tem que entrar para fazer os procedimentos”, disse a moça, que aproveitou para reclamar da sobrecarga de trabalho. “Normalmente, umas 25 pessoas estariam trabalhando aqui e só tem oito. Muita gente está afastada. E isso é ruim, pois o pessoal fica sobrecarregado”, revela.

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