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Facção ostentou por 6 meses sigla em igreja ao lado da sede da Polícia Civil, na Piedade

Facção ostentou por 6 meses sigla em igreja ao lado da sede da Polícia Civil, na Piedade

Sacrilégio, mais um recado afrontoso ou os dois? O fato é que a inscrição da facção Bonde do Maluco (BDM) estava a 30 passos do prédio-sede da Polícia Civil, na Piedade. Há cerca de seis meses, as paredes da Igreja e Convento Nossa Senhora da Piedade exibiam as iniciais do maior grupo criminoso do estado e vinham deixando todos preocupados, principalmente quem está diariamente no tempo religioso.

“Vandalismo já aconteceu bastante, mas pichação como essa de agora, referente à uma facção, não. Estamos todos assustados. Qual o objetivo deles expressando isso em nossa parede? Faz medo porque a gente não sabe o que está por trás disso. Pode ser recado à polícia, pode sim, como também pode ser uma direta a outros grupos que também atuam aqui no centro. Quais as consequências disso para todos nós? ”, declarou o reitor do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, padre Albervan Pinheiro.

As inicias “BDM” estavam até a última sexta-feira (10) nas paredes frontais da Igreja e Convento Nossa Senhora da Piedade, onde o portão de entrada está defronte à Praça da Piedade. “Já tinha visto as pichações, mas não sabia que as letras indicavam uma facção”, disse o padre Albervan. Ao tomar conhecimento do significado das três letras através do CORREIO, o religioso aproveitou que o templo passa por uma reforma e determinou que a pichação fosse apagada. “Viajei no último sábado (18), mas antes disso ordenei para o pessoal da obrar cobrisse aquilo lá. Quando retornei na segunda (13), não havia mais nada”, contou.

A reportagem repercutir o caso com alguns fiéis. De acordo com um deles, o BDM quis mandar um recado para a à Secretaria de Segurança Pública (SSP). “Com certeza foi para chamar a atenção da polícia, para dizer: ‘estamos aqui e não temos medo’. Esta é a minha leitura. Como é possível fazerem isso sem que a polícia percebesse, bem debaixo do nariz dela? Aqui tem câmera para todos os lados, inclusive na praça. E o pior: isso está aí há uns seis meses e ninguém apaga”, declarou o economista João Paulo de Freitas, 54, morador do bairro e um dos frequentadores assíduos da igreja Nossa Senhora da Piedade.

As iniciais teriam sido colocadas por moradores de rua da região. “Certamente. Eles são usuários ao mesmo que tempo que também trabalham para a facção, levando e trazendo informações e pichando as iniciais do grupo a pedido dos gerentes do tráfico”, contou João Paulo.

Questionada sobre o acontecido, a SSP informou que " combater o tráfico de drogas é prioridade das polícias Militar e Civil". "Informa ainda que de janeiro a agosto, em 2021, cerca de 15 toneladas de entorpecentes foram apreendidos e 1,2 milhão de pés de maconha foi destruído", disse a SSP em nota.

Já a Polícia Civil disse que " a ação de quadrilhas " é investigada pelo Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco). A nota enviada pontua que a PC "vem atuando por meio de atividades de inteligência, diligências, operações e outras ações de Polícia Judiciária em todo território baiano".

A Polícia Militar, por sua vez, informou que "o policiamento ostensivo na região da Praça da Piedade conta com duplas de policiais militares a pé ao longo dos seus subsetores, reforçado por guarnições ordinárias embarcadas em viaturas duas e quatro rodas e pela Companhia de Emprego Tático Operacional (CETO) do 18º BPM". A PM também informou que conta com uma base móvel de segurança e com o reforço operacional de policiais atuando 24h. Ainda segundo o órgão, no mês de setembro, "o policiamento foi reforçado com mais uma viatura de rádio patrulhamento acrescida, durante o dia, ao efetivo já existente, tendo em vista a aproximação da alta estação e dos meses de final de ano".

Esta não foi a primeira vez que siglas de facções são ostentadas próximas a unidades policiais. Em setembro do ano passado, o CORREIO registou também as iniciais do Comando da Paz (CP) e o Comando Vermelho (CV) em frente à Base Comunitária e a menos de 500 metros da 40ª Companhia Independente da Polícia Militar (Nordeste de Amaralina). No seguida à publicação, as inscrições foram apagadas pela polícia.

Missas
Antes das inscrições, os assaltos já faziam parte da rotina dos fiéis. Por conta do aumento da criminalidade no entorno Igreja e Convento Nossa Senhora da Piedade e também na Paróquia de São Pedro que, apesar de não ter sido pichada com as iniciais do BDM, vem sofrendo as consequências por estar situada na Praça da Piedade, as tradicionais missas nas tardes de domingo foram suspensas desde o início da pandemia.

“Quando encerrávamos as celebrações das 17h, os fiéis eram assaltos nos pontos de ônibus ou quando andavam para casa, pois muitos moravam no entorno. Isso aqui aos domingos é muito deserto e as pessoas estavam vulneráveis. Bandidos levavam bolsas, correntes, o que podia carregar. Então, por uma questão de segurança, tanto aqui, como na Paróquia de São Pedro, ficou decido pelo encerramento das missas nas tardes de domingo”, declarou o reitor do Santuário de Nossa Senhora da Piedade, padre Albervan Pinheiro.

A reportegem perguntou à Polícia Civil sobre o que tem a dizer sobre o cancelamento das missas às 17h e também em relação aos constantes assaltos. Até o fechamento desta edição não houve um posicionamento. Os mesmos questionamentos foram realizados à Polícia Militar (PM), que por sua vez também não respondeu.

Barra
As marcas das facções são encontradas cada vez mais no centro de Salvador. Ou seja, os criminosos estão saindo da periferia, deixando os locais escondidos, para ostentar o poder em bairros turísticos, como a Barra.

Na Rua Barão de Sergy iniciais de grupos rivais foram deixadas em pontos distintos ao logo da via, a cerca de 250 metros da 14ª Delegacia (Barra). Na parede de uma farmácia que dá no início rua no sentido Porto da Barra, a letras “C” e “P”, postas lado a lado, fazem referência de que o comando do tráfico no local é do Comando da Paz. “Eu não sabia do que se tratava, mas está aí há quase um ano. Mas não é novidade pra ninguém que a Barra hoje virou o point da malandragem, principalmente nos finais de semana, pois o tráfico rola solto”, disse um morador de um dos edifícios no local.

Uma gaúcha, que mora há poucos mais de cinco meses em um dos prédios da rua, disse que assim que chegou, foi orientada pelos vizinhos sobre a situação do tráfico na Barra. “A gente percebe através de comentários, que aqui já foi um lugar mais tranquilo. Agora, vem muita gente de outros lugares atrás de drogas. Isso acontece com mais frequência no sábado e no domingo, quando tem o maior fluxo de pessoas, consequentemente um número maior de consumidores”, disse ela.

Já no final da Barão de Sergy, no muro do Edifício Rosário, é possível perceber, ainda que apagadas, uma das simbologias do Bonde do Maluco, "TD 3", que siginfica "Tudo 3", a mesma coisa que "BDM" , além da sigla CP, que, ao que tudo indica, sobrepõe a marca rivcal. Algumas pessoas disseram que foram os próprios moradores do prédio que trataram de retirar as pichações. Nenhum deles quis falar soibre o assunto.

Um porteiro que trabalho há mais de 20 anos em um edifício disse que a Barra está igual ao bairro que ele mora, o Tororó. “ Não tem muito tempo que acordamos com tudo pichado do BDM. A cada dia eles (traficantes) estão mais ousados, querendo ficar em evidência e dão testa onde for. Foi o que a aconteceu no domingo. Alguém deu o canal que o rapaz estava no local e foram lá para apagar ele”, disse o porteiro, se referindo ao episódio do último domingo, quando dois homens e uma mulher foram baleados durante tiroteio no Porto da Barra.

Tiroteio
O Departamento de Homicídios a Proteção à Pessoa (DHPP) investiga a autoria e a motivação dos tiros que mataram o acusado de tráfico Rodrigo Cerqueira de Jesus, o Tosca no domingo (05), no Porto da Barra. No dia, a mãe dele e outro homem também foram baleados.

As vítimas foram socorridas para o Hospital Geral do Estado (HGE), onde Rodrigo chegou sem sinais vitais. O estado de saúde das outras duas vítimas não foi divulgado. Moradores da região contam que foram, ao menos, cinco disparos efetuados na esquina da Rua Cézar Zama com a Barão de Sergy.

De acordo com a assessoria da Polícia Civil, informações preliminares dão conta de que Rodrigo seria integrante de um grupo criminoso com atuação no bairro de Cosme de Farias e um dos alvos de investigações do DHPP.
Ainda segundo informações preliminares, ele seria o principal alvo dos criminosos. A disputa pelo tráfico de drogas é a principal linha de investigação para o crime.

A Barra vem sofrendo com uma onda de violência. Para minimizar a situação, a 11ª Companhia Independente (Barra) conta atualmente com um novo comandante quer assumiu o cargo nesta quinta-feira (16).

Pavilhão
Um dos cinco grupos criminosos mais atuantes na Bahia, e considerado o mais violento, o Bonde do Maluco (BDM) surgiu em 2015 no pavilhão V do Presídio Salvador, no Complexo Penitenciário da Mata Escura. Liderado pelo assaltante de banco José Francisco Lumes, o Zé de Lessa, morto em dezembro de 2019, o grupo nasceu como uma ramificação da extinta facção Caveira, comandada por Genilson Lima da Silva, o Perna, custodiado em presídio federal.

Seguindo modelo semelhante às maiores organizações criminosas do país - Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, e Comando Vermelho, do Rio de Janeiro -, o BDM foi criado para ampliar a área de atuação da facção Caveira, nesse caso, na Bahia, em alguns pontos estratégicos do tráfico da capital, como Subúrbio e Cajazeiras, e principalmente na Região Metropolitana de Salvador.

No entanto, houve um racha e uma parte do grupo mais agressiva ficou sob o comando de Zé de Lessa, que tinha como fornecedor de armas e drogas o PCC. Atualmente, em Salvador, o BDM tem atuação em Cajazeiras, Brotas, parte do Subúrbio e orla (entre a Boca do Rio e Itapuã), Cabula, Garcia, Pau da Lima, Federação e parte da Ilha de Itaparica. A expansão começou por Cajazeiras X.

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  • Salvador: Prefeitura entrega nova sede da Sempre no Comércio

    A prefeitura de Salvador inaugurou, na manhã desta sexta-feira (15), a nova sede da Secretaria Municipal de Promoção Social, Combate à Pobreza, Esporte e Lazer (Sempre), que está localizada na Rua Miguel Calmon, no Comércio, e dá a infraestrutura necessária para atendimento diário a 800 pessoas, número quatro vezes maior do que era possível na sede anterior.

    O prefeito Bruno Reis esteve na inauguração e destacou que o local se tornou mais confortável e com maior capacidade de atendimento à população em situação de vulnerabilidade, após intervenções realizadas pela Prefeitura.

    Reis falou ainda sobre a função social da Sempre em relação ao cidadão carente da capital baiana. "Aqui é a casa dos pobres, a casa de quem mais precisa, dos mais carentes de nossa cidade. Que este espaço sirva de motivação para todos desta equipe. Os desafios são grandes e serão superados com trabalho e motivação”, declarou Bruno Reis, destacando o fato da pandemia ter acentuado dificuldades sociais e reforçado a importância da Secretaria.

    Na Sempre, além das inscrições no Cadastro Único, a população terá acesso ainda a benefícios como os auxílios funeral, natalidade, moradia, viagem e emergência.

    Lucas Gonçalves, presidente do projeto Salvador Invisível, que trabalha com assistência para pessoas em situação de rua, elogiou a nova sede e a consequente melhoria no processo de atendimento do órgão. "São novos ares com mais conforto tanto para os funcionários públicos como para a população que é assistida pela Sempre. Para a população de rua, é ainda mais fundamental, já que aumenta o número de vagas para quem precisa desse atendimento, além de estar em um prédio mais bem localizado, o que facilita o acesso", comentou.

    Educação
    No evento, Bruno falou sobre a retomada das aulas e a preocupação com a educação em Salvador. "A maior preocupação do prefeito é educação. As crianças não estudaram em 2020 e a grande maioria não voltou em 2021. Elas foram aprovadas no ano passado e serão neste também. No entanto, a criança que estudou em 2019 e, praticamente, ficaram sem aula em 2020 e 2021, esqueceram o que aprenderam antes e passaram esses dois anos sem o conteúdo mínimo que possibilitasse o aprendizado", disse.

    Recuperar o tempo perdido será um grande desafio, avaliou. "São três anos e qualquer dia é importante. Tem pai querendo levar o filho só no ano que vem e estão pensando errado. Vai ser um desafio enorme tirar a diferença dos anos perdidos na pandemia nos próximos ciclos de ensino. Então, qualquer dia a mais é importante. Essa é a minha maior preocupação, como as crianças vão estar ano que vem. Por isso, faço o apelo aos pais e responsáveis: voltem o quanto antes".

    Transporte
    Já falando sobre transporte, Bruno disse que em horário de pico há aglomeração em qualquer local do mundo. "A frota não voltou 100% porque estamos transportando 60% do público que era transportado antes. Quando a concessão foi feita, eram 18 milhões de passageiros. Antes da pandemia, estávamos com 21 milhões. Depois, caiu pra 10,8 e, agora estamos chegando a 15 milhões de passageiros no mês", explicou.

     

  • 'Com ele foi um pedacinho de mim', diz avó de jovem morto em chacina no Uruguai

    Enquanto o corpo de Deivison da Conceição Santos, 18 anos, não chegava para o sepultamento previsto para as 10h desta quinta-feira (14), parentes e amigos aguardavam na entrada do cemitério municipal de Periperi, entre eles avó do rapaz, Lucilene Antônia Maria da Conceição, 64. A idosa, que o criou desde pequeno, desabafou ao lembrar do neto, morto na chacina do Uruguai. "É uma dor grande, sem limites. É um pedacinho de mim que se foi", declarou.

    Tio de Deivison, William Silva Santos falou da dor pela morte do rapaz e os paredões. "A família está desolada, uma fatalidade com um jovem por causa de um paredão. A gente fica arrasado porque a gente quer que os jovens cresçam, que sejam alguém na vida, mas aí essas festas os atraem para a morte. Nesses paredões as músicas incentivam a promiscuidade e o uso de drogas. Não tem como num lugar desses colher bons frutos. Acredito que nem a polícia e nem o governo vão acabar com essa praga, infelizmente".

    Pediu para não ir
    “Ele morava com os avós e saiu de casa pouco antes de tudo ter acontecido. A avó ainda pediu para ele não ir por causa do horário, mas por ser maior, ele saiu. Eu estava dormindo na hora e só acordei com o som dos tiros. Nossa casa fica a 100 metros de onde a festa acontecia”, conta a mãe de Deivison.

    Segundo ela, Deivison, que era seu filho mais velho, fazia supletivo e trabalhava em uma oficina. Logo após ter acordado com o som dos tiros, a mãe recebeu a notícia de que seu filho tinha sido baleado. “Quando eu cheguei na praça, ele já estava morto. A polícia já estava lá também. Eles me trataram super bem. Os policiais me deram palavras de apoio e incentivo”, relata.

    A mãe ainda conta que Deivison era vizinho e amigo de Alexsandro, outra vítima do atentado. “Foram garotos que nunca se envolveram em nenhuma situação de desrespeito. Infelizmente, eles estavam na hora errada, no lugar errado. É complicado, mas quem nos sustenta é Jesus. Quando a gente pensa que não vai aguentar, é ele quem ampara”, disse.

    Mais despedidas
    Na manhã desta quinta-feira (14), também aconteceram os enterros de Adriane Oliveira Santos, 20 anos, e Alexsandro Santos Seixas, 16 anos, no cemitério de Plataforma.

    "Ela tinha um salão de beleza lá mesmo no Uruguai. Começou a trabalhar desde cedo depois fazer um curso de cabeleireira. Deixou um menino de três anos. Como todo jovem, gostava de festas e era brincalhona", declarou o porteiro Everaldo Nascimento, 49, padrinho de um dos irmãos de Adriane. A avó da jovem passou mal e precisou ser carregada após o sepultamento. Antes de desmaiar, dona Irene repetia inúmeras vezes: "Perdi minha neta, meu Deus! Que dor".

    A família de Alexsandro também estava bastante emocionada. "Deus está me dando forças para aguentar tudo isso. Quando soube (da morte), peguei a Bíblia, onde a fé me consola", declarou o pai de Alexsandro, o auxiliar de serviços gerais que, após o sepultamento, permaneceu ao lado da cova do filho.

    Já a mãe do rapaz, Alcione, deixou o local amparada, sem forças para caminhar. "O que foi que eu fiz para merecer isso? Deus é quem está me mantendo em pé", disse ela enquanto deixava o cemitério. Ela chegou a dizer para um amigo que chegou a molhar algumas roupas do filho em uma tentativa de evitar que ele fosse ao paredão.

    Vítimas
    O crime aconteceu na madrugada dessa quarta-feira (13), deixando um saldo de 12 feridos e seis mortos. Todos estavam no paredão que acontecia na Travessa Oito de Dezembro, na localidade conhecida como Pistão. Moradores contaram que os tiros começaram já no final da festa, após uma discussão entre os participantes. Os tiros duraram menos de cinco minutos, mas como a festa estava cheia, muitas pessoas foram atingidas - a maioria com menos de 30 anos.

    Os demais mortos na ação foram identificados como Adriane Oliveira Santos, Brenda Buri da Silva, Alexsandro Santos Seixas, de 16 anos, Jailton Sales dos Santos e Kadson dos Santos Passos.

    Tiros
    O tiroteio assustou quem mora no bairro. "Todo mundo que foi baleado não mora aqui. Essa rua é super tranquila. Agora, as pessoas estão com medo de vir aqui por causa disso", disse outro morador da rua, que é rodeada de casas e de alguns estabelecimentos comerciais, como bares, lojas de roupas, vidraçarias e oficinas mecânicas. "A maioria dos baleados tinha 30 (anos) para baixo. Na festa havia muito adolescentes", contou uma moradora.

    Segundo informações da Polícia Civil, testemunhas relataram que um grupo armado chegou ao local onde acontecia uma festa do tipo “paredão” e efetuou vários disparos.

    De acordo com a Polícia Militar, equipes da 17ª Companhia da PM (CIPM/ Uruguai) faziam rondas no local quando moradores relataram o tiroteio.

  • Acidentes de moto matam uma pessoa por semana em Salvador

    Acidentes envolvendo motocicletas matam uma pessoa por semana em Salvador. De janeiro a setembro deste ano, a Transalvador registrou 36 óbitos por esse motivo. Apesar do número de mortos ser quase 30% menor que o mesmo período de 2020, o índice ainda é visto com preocupação pelos órgãos públicos.

    Essa semana, entre a segunda-feira (11) e a manhã desta quarta-feira (13), três pessoas morreram em acidentes com motos: o jogador de futebol Nadson Santos Gonçalves,15 anos, o policial Hendel Andrade da Silva, 23, que atuava no 6º Batalhão de Polícia do Exército (BPE), e o garçom Cristian dos Santos de Jesus, 26. Os três estavam sem capacete. Nadson e Hendel não tinham habilitação.

    Segundo a Polícia Civil, o acidente envolvendo Nadson Gonçalves ocorreu na Ladeira do Abaeté, em Itapuã, no feriado do Dia da Criança, por volta das 18h. O caso é apurado pela 12ª Delegacia Territorial. A moto do rapaz colidiu com um veículo que fugiu sem prestar socorro, o que é ilegal de acordo com o Código Nacional de Trânsito.

    “Espero que isso sirva de lição para muitos jovens. Se for sair, usem o capacete”, apelou o pai de Nadson, Jorgildo Silva Gonçalves. Na avaliação dele, o filho teria sobrevivido caso estivesse com o item de segurança. “O impacto na cabeça foi muito forte e o carro passou por cima dele, infelizmente. O Samu ainda tentou reanimá-lo durante duas horas, mas não teve jeito. Acho que se tivesse com o capacete, o resultado seria diferente”.

    Nadson levava uma amiga na garupa da moto quando um carro entrou na contramão, em alta velocidade, e o atingiu. “Estava acontecendo uma festa do Dia da Criança na Rua Angélica. Ele saiu para levar a menina para a casa dela. Os amigos até disseram para ele não ir sem capacete”, contou Jorgildo.

    Ele não sabe de quem era a moto usada pelo filho. “Para falar a verdade, nem sabia que ele andava pilotando moto". A moça que estava com Nadson também não usava capacete. Segundo testemunhas, ela foi levada para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Itapuã, onde foi atendida e recebeu alta.

    O veículo que causou o acidente foi apontado pelos familiares como sendo um gol preto. “Segundo o relato de pessoas que presenciaram o acidente, o carro estava tentando ultrapassar um micro-ônibus quando entrou na contramão e acertou a moto”, disse Jorgildo. Na manhã de ontem ele esteve no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IML) para retirar o corpo e providenciar o sepultamento do jovem.

    Sonho interrompido

    Nadson Santos Gonçalves queria ser jogador de futebol profissional do Vitória e participava de peneiras do time há, pelo menos, dois anos. Além disso, era contratado por times amadores para atuar na lateral direita. O jovem também trabalhava em uma oficina, pela manhã. Á tarde, treinava futebol e, à noite, estudava. A família via futuro no garoto e acreditava no seu potencial. “Ele era a nossa esperança”, conta o pai.

    "Era um rapaz correria, trabalhador. Cresceu rapidamente e estava virando adulto. É muito triste o que aconteceu”, lamentou o empresário Marcos Roberto, que empregou Nadson como ajudante de pintor. “Ele trabalhava comigo, pois se não desse certo no futebol, já tinha profissão garantida. Com 15 anos, tinha esse pensamento”, lembra.

    Nadson era filho único por parte da mãe e tinha outros dois irmãos mais velhos por parte de pai. “Tanto a mãe como as tias estão inconsoláveis, pois elas cuidavam muito dele. Nossa família toda mora em Itapuã e o sentimento de dor é enorme”, conta.

    O enterro do adolescente foi às 16h desta quarta, 13, no cemitério Bosque da Paz.

    Soldado morre na Avenida Centenário

    O acidente envolvendo o soldado Hendel da Silva aconteceu na Avenida Centenário, na saída do túnel Teodoro Sampaio, na Barra, por volta das 5h desta quarta, 13. De acordo com a Polícia Civil, não é possível, ainda, saber a causa do acidente.

    Familiares e amigos disseram que Hendel voltava para casa após uma reunião com amigos, no Garcia, quando perdeu controle da moto. O amigo Ayrton Bruno, 25, microempresário, foi um dos primeiros a receber a notícia. Ele não sabe dizer se o amigo tinha bebido ou não. Às 7h ele começava a trabalhar no Exército, onde servia desde os 18 anos.

    “Várias pessoas me ligaram ao mesmo tempo, porque sabiam que a gente sempre estava junto. Ele até tinha me chamado para sair, mas falei que não ia, porque estava cansado. Quando foi de madrugada, fui resgatar ele. Quando cheguei, já estava morto. Foi horrível, doeu muito. Ele não era só meu amigo, era meu irmão”, contou Bruno.

    Os dois faziam tudo juntos – iam à praia, usavam o mesmo tipo de roupa, e serviram na mesma época. A dupla morava na mesma rua, vizinhos de casa. Bruno também ajudava o amigo em uma hamburgueria. Segundo ele, era o sonho do amigo expandir o negócio - era somente delivery, criado há um ano. “Ele sonhava que virasse um restaurante”.

    Helder era o mais novo de seis irmãos e tinha uma namorada há cinco anos. “Espero que Deus conforte a alma dele, ele jamais será esquecido”, completa o amigo. O corpo de Helder demorou quase cinco horas para ser removido da rua. O irmão dele, Eder, Andrade da Silva, 36, recepcionista, reclamou do descaso.

    “Teve toda a burocracia do IML para pegar o corpo, abrir ocorrência na 1ª delegacia, nos Barris, depois disseram que era no Iguatemi... É muita falta de respeito. Até para você perder um ente querido hoje, se passa por humilhações. Além da dor da perda, a gente se sente humilhado pelos nossos órgãos, que não trabalham de forma correta”, desabafou.

    A família sabia que Hendel tinha comprado uma moto, há três meses, apesar de não concordar. “Todo dia a gente vê reportagem sobre acidente de moto, conversei com ele para sair disso, que não era legal. Mas, infelizmente, acabou acontecendo essa fatalidade. Foi falta de responsabilidade dele, porque, aparentemente, o capacete estava no braço. Fico triste porque a gente vê a situação de outros jovens e ele cometeu o mesmo erro”, disse Eder.

    Além de ampliar a hamburgueria, Eder diz que o irmão queria seguir a carreira militar. O sepultamento foi às 16h30, no cemitério Campo Santo.

    Número de feridos cresce 3,2% em 2021

    O número de feridos em acidentes envolvendo motocicletas em Salvador aumentou na comparação entre janeiro a setembro de 2020 com o mesmo período de 2021. No ano passado, 1.264 pessoas ficaram com alguma lesão por conta de acidentes de trânsito envolvendo motos. Este ano, já são 1.305 pessoas na mesma situação.

    O superintendente da Transalvador, Marcus Passos, explica que um dos motivos é o aumento do número de motocicletas circulando na capital. Em setembro de 2020, eram 145.570 veículos desse tipo, segundo dados do Ministério da Infraestrutura. Já em setembro de 2021, de acordo com o Detran-BA – Departamento de Trânsito, são 155.947. Ou seja, um crescimento de 7,2%.

    “A gente percebe um aumento dos acidentes, no último ano, por conta das muitas entregas e deliverys feitas na pandemia. São mais mototaxistas nas ruas”, observa Passos, que enumera os principais motivos dos acidentes: excesso de velocidade, desrespeito ao sinal vermelho e as mudanças repentinas de faixa, sem sinalização.

    As principais vias onde ocorrem as infrações são na Avenida Luís Viana Filho, a Paralela, e a Afrânio Peixoto, a Suburbana. Também estão no ranking as avenidas Antônio Carlos Magalhães e a Mário Leal Ferreira (Bonocô). Para reverter os números, a Transalvador aposta em fiscalização e campanhas educativas.

    “Desde 2019, temos o programa Vivo na Moto, que promove palestras, ações educativas e cursos gratuitos de pilotagem nas concessionárias de motocicletas, autoescolas, bairros, onde esse segmento estiver. Vimos a necessidade de fazer algo voltado para os motociclistas justamente pela quantidade de acidentes e dar mais segurança, para eles e para os outros motoristas, já que a educação no trânsito é algo coletivo”, diz Marcus Passos.

    Acidentes com motos em Salvador:

    *2019 - 1961 feridos e 44 mortos
    *2020 - 1264 feridos e 51 mortos
    *2021 - 1.305 feridos e 36 mortos

    Fonte: Transalvador

    Três dicas para evitar acidentes de moto:

    Velocidade - Respeite os limites de cada via;

    Sinalização - Preste atenção às placas das vias, não estacione em locais proibidos ou faça manobras em locais perigosos, como curvas;

    Acessórios - Use equipamentos de segurança como capacete, e, se puder, calça jeans e blusa com manga;

    Fonte: Transalvador

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